sábado, agosto 19, 2017

"Embraceable You" [canções]

Sarah Vaughan
Embraceable You
Sarah Vaughan with Clifford Brown (1954)


O cão de Todd Solondz

de Todd Solondz
[DN, 10-08-2017]

Símbolo veterano de um certo cinema independente americano (recorde-se o interessante Wellcome to the Dollhouse, de 1995), Todd Solondz tem evoluído através do reforço das componentes mais maniqueístas do seu universo: primeiro, um formalismo visual cada vez mais postiço e redundante; depois, a redução do seu cepticismo social a um banal menosprezo por todas as suas personagens.
Neste caso, a colagem de episódios ligados pela presença de um mesmo cão (Wiener-Dog é o título original) vai oscilando da caricatura do quotidiano até uma bizarra dimensão sobrenatural. Apesar de tudo, são os actores que sustentam os melhores momentos, em particular Danny DeVito, compondo um argumentista frustrado pela indiferença de Hollywood (acto falhado?...), e ainda, na história final, Ellen Burstyn e Zosia Mamet.

sexta-feira, agosto 18, 2017

A IMAGEM: Adam Zyglis, 2017

ADAM ZYGLIS
Steve Bannon
The Buffalo News, 06-02-2017

Racistas [citação]

Matthieu Bourel [ilustração NYT]
>>> Desde o começo da sua corrida presidencial, uma das mais sérias acusações contra o Sr. Trump foi a de que ele tolera os racistas. Muitos dos seus apoiantes, eu incluído, conseguimos convencer-nos que alguns dos seus comentários mais chocantes — como na controvérsia em torno do juiz Gonzalo Curiel [nomeado por Barack Obama] ou na sua hesitação inicial em repudiar o apoio de David Duke [negacionista do Holocausto, ex-líder do Ku Klux Klan] — não passavam de gaffes, à maneira de Biden, cometidas no calor da campanha.
Tornou-se agora claro que estávamos a iludir-nos. Ou o Sr. Trump sente uma genuína simpatia por pessoas como David Duke, ou é de tal maneira obtuso que se revela radicalmente incapaz de aprender com os seus próprios erros. De uma maneira ou de outra, continua a dar razão aos seus críticos mais severos.

The New York Times, 17-08-2017

Chet Baker — jazz & cinema

Ethan Hawke
Há quase um ano e meio, assinalava-se aqui a trajectória de um filme que suscitava muita curiosidade e expectativa: Born to Be Blue tinha Ethan Hawke a interpretar Chet Baker! Infelizmente, confirmaram-se as mais cépticas previsões. Ou seja: o filme nunca chegou às salas portuguesas. Agora, anda discretamente a circular pela televisão por cabo, para mais identificado por um título português, no mínimo, equívoco: O Homem dos Blues. Fica o essencial: importa descobrir tão frágil diamante — este texto foi publicado no Diário de Notícias (13 Agosto), com o título 'Chet Baker contra Chet Baker'.

A canção Born to Be Blue, composta em 1946 pela dupla Mel Tormé/Robert Wells é um lendário standard do jazz, conhecido através de versões de Dexter Gordon, Ella Fitzgerald, Helen Merrill, Ray Charles ou Chet Baker. Born to Be Blue é também o título de um belo filme canadiano de 2015, sobre o trompetista Chet Baker, precisamente, agora disponível na televisão por cabo (TVCine).
Como qualquer outro filme, também este vale por si, independentemente das condições (ou, como agora se diz, das plataformas) da sua divulgação. Ainda assim, como não lamentar que tão delicado objecto de cinema surja no pequeno ecrã sem ter passado pelas salas escuras? A sua odisseia comercial surge também assombrada pelo infeliz título português, O Homem dos Blues. Mesmo tendo em conta as muitas contaminações entre jazz e blues (recorde-se o valor pedagógico da série televisiva The Blues, produzida por Martin Scorsese em 2003), a definição de Chet Baker como “homem de blues” carece de pertinência histórica e estética.
Será preciso acrescentar que o “blue” de Born to Be Blue não é uma classificação musical, antes remete para um misto de desencanto e melancolia? De facto, a existência de Chet Baker (1929-1988) foi uma tragédia suspensa entre o confronto com os grandes intérpretes negros do seu tempo (a começar por Miles Davis) e uma violenta dependência da heroína. Robert Budreau, argumentista e realizador de Born to Be Blue, encena-o nesse ziguezague entre uma cruel pulsão auto-destrutiva e a nunca vencida utopia da música.
Como intérprete de Chet Baker, Ethan Hawke encontra, aqui, um dos maiores desafios da sua carreira. Desde logo, pela aposta em “reproduzir” o olhar triste, a fragilidade da voz e a pose cansada da personagem. Mas sobretudo porque seria demasiado fácil apresentar Chet Baker através de algumas explicações “psicológicas” mais ou menos redentoras.
Daí o jogo de espelhos que Budreau propõe, arriscando para além das obrigações “factuais” de uma biografia. Born to Be Blue oscila entre a vida vivida e a vida imaginada (o filme dentro do filme em que Chet Baker teria interpretado o seu próprio papel), numa ambivalência em que a personagem se define contra a sua própria identidade. Nesse sentido, este é um filme eminentemente jazzístico, não pelos factos narrados, mas pela sua própria construção: trata-se de saber que variações dramáticas são possíveis a partir do tema “Chet Baker” — mesmo quando a melodia inicial parece perder-se pelo caminho, há uma emoção que persiste.

quinta-feira, agosto 17, 2017

Jacques Demy, aqui e agora (2/2)

A reposição de dois filmes de Jacques Demy é o grande evento cinéfilo deste Verão do nosso descontentamento — este texto foi publicado no Diário de Notícias (12 Agosto), com o título 'Quando a música é uma forma de erotismo'.

[ 1 ]

Em boa verdade, já havia música em Lola, incluindo a célebre canção-tema interpretada por Anouk Aimée. O seu compositor, Michel Legrand, acabaria por ser uma personalidade decisiva na consolidação do cinema de Demy, compondo, justamente, as bandas sonoras de Os Chapéus de Chuva de Cherburgo e As Donzelas de Rochefort.
O que distingue o primeiro filme das matrizes tradicionais do musical é a sua estrutura recitativa. Não encontramos as habituais “interrupções” da acção para que, através do canto, eventualmente da dança, os actores interpretem um “número” autónomo. Um pouco à maneira da ópera, todos os diálogos são cantados, transformando a acção num fascinante “coral” que está longe de ser historicamente abstracto: o romance do par central, interpretado por Catherine Deneuve e Nino Castelnuovo, está mesmo dramaticamente marcado pelo facto de ele ser mobilizado para combater na guerra da Argélia.
MICHEL LEGRAND
No Festival de Cannes de 1964, Os Chapéus de Chuva de Cherburgo arrebatou a Palma de Ouro (com o alemão Fritz Lang a presidir ao júri) e, de um momento para o outro, deu a Catherine Deneuve o estatuto de estrela. Demy voltou a convidá-la para o filme seguinte, precisamente As Donzelas de Rochefort, alargando o convite a sua irmã, Françoise Dorléac. Com apenas um ano e meio de diferença de idade (Françoise nasceu em 1942, Catherine em 1943), Demy sugeriu-lhes que representassem um par de gémeas, o que, aliás, se reflectiria numa das mais célebres canções (“Nous sommes deux soeurs jumelles...”) compostas por Legrand.
Os amores e desamores das personagens centrais são de novo encenados através de uma narrativa exuberante em que a música (incluindo a dança) desempenha um papel nuclear. Explicitando as suas raízes criativas, Demy convidou dois americanos a integrar o elenco: o mestre Gene Kelly e George Chakiris (que, em 1961, contracenara com Natalie Wood em West Side Story). Com grande parte das sequências rodadas nas ruas e praças da cidade de Rochefort, o filme persiste como um dos mais perfeitos objectos de toda a história do musical. A sua contagiante felicidade teria como contraponto um acontecimento trágico: no Verão de 1967, cerca de três meses depois da estreia, Françoise Dorléac faleceu num acidente de automóvel.

LCD Soundsystem, tonite

A pose mais ou menos retro (microfone incluído) fica bem a James Murphy. É assim que ele aparece no teledisco de tonite (nem a minúscula nem a grafia são erros), com direcção de Joel Kefali — é mais um aperitivo para o novo álbum dos LCD Soundsystem, American Dream, agendado para 1 de Setembro.

quarta-feira, agosto 16, 2017

A IMAGEM: Murray Close, 1992

MURRAY CLOSE
Madonna
[rodagem do teledisco de This Is Used to Be My Playground]
1992

As agências de comunicação
que tratam os jornalistas por "tu"

PIERRE BONNARD
Auto-retrato
1889
1. Deixou de ser um acidente. Passou a ser um comportamento normalizado. Mais do que isso: ilustra uma forma de cultura que, como todas as formas de cultura, envolve uma percepção específica da identidade do outro.

2. Que acontece, então? Proliferam os emails provenientes de entidades — ditas agências de comunicação — que promovem determinados produtos, na área do audiovisual em particular, tratando-me por "tu" (sem esquecer que eu sou apenas um dos destinatários do colectivo de endereços que gerem). Umas vezes são assinados por homens, outras por mulheres; em qualquer caso, são pessoas que, pura e simplesmente, não conheço — convém, aliás, começar por lembrar que, na era das "amizades" virtuais, ter acesso ao endereço de email de alguém ainda não é uma forma de conhecimento, nem sequer banalmente social, dessa pessoa.

3. Que está a acontecer, realmente? Porque é tais pessoas consideram que podem, ou devem, tratar-me por "tu"?

4. Bem sei que a minha interrogação será lida na maioria dos casos como banal afirmação de autoridade etária ("olha ele ofendido..."). E, humildemente reconheço, não será fácil superar o maniqueísmo de tal visão.

5. Arrisco, de qualquer modo. É verdade que, apesar do meu interesse, estudo e máximo respeito pela cultura anglo-saxónica, ainda não me sinto obrigado a transpor para o português a gramática da língua inglesa. Dito de outro modo: a globalização do "you" não me leva a sentir-me obrigado a lidar com o meu semelhante através de um compulsivo "tu".

6. Em todo o caso, não vejo este infantilismo obrigatório do "tu" como uma banal falta de respeito. Em boa verdade, é muito pior do que isso: esse "tu" triunfante transporta uma brutal indiferença pelo outro.

7. Porquê indiferença? Porque a ilusória proximidade do "tu" pressupõe — ou quer impor — a ideia de que falamos a mesma linguagem.

8. Ora, seria importante que os homens e as mulheres que trabalham nas ditas tarefas de comunicação começassem por perceber uma lei básica da própria comunicação. A saber: podemos utilizar a mesma língua, mas isso não quer dizer que nos reconheçamos nas mesmas linguagens.

9. Ou ainda: não é porque decidem tratar-me por "tu" que eu passo a aplicar (muito menos sou obrigado a aplicar) as mesmas linguagens para falar, escrever ou pensar sobre os produtos que querem promover.

10. Pela evolução dos costumes — entenda-se: das linguagens —, sou mesmo levado a deduzir que os homens e as mulheres que nos tratam por "tu" consideram que os outros, a começar pelos jornalistas, só podem encarar os filmes ou as séries de televisão que promovem como produtos definidos a partir das regras que eles aplicam. Como chegaram a tão simplista visão? Valeria a pena trabalharem um pouco para compreender o mundo plural das linguagens e respectivas especificidades, nomeadamente as singularidades dessa velha arte de comunicação que se chama jornalismo — encore un effort...

terça-feira, agosto 15, 2017

Aaron Sorkin + Jessica Chastain

Aaron Sorkin, argumentista das séries Os Homens do Presidente (1999-2006) e The Newsroom (2012-2014), e de filmes como A Rede Social (David Fincher, 2010) e Steve Jobs (Danny Boyle, 2015), estreia-se na realização com Molly's Game — trata-se da adaptação do livro homónimo de Molly Bloom que, durante alguns anos, dirigiu um clube privado de poker frequentado por algumas das figuras mais poderosas de Hollywood.
Para além da expectativa suscitada pelo novo trabalho daquele que é um dos mais notáveis argumentistas da actualidade, não será arriscado supor que, no papel de Molly, Jessica Chastain surgirá, no mínimo, na linha da frente para uma nova nomeação para o Oscar. Seja como for, registe-se que Molly's Game será revelado em Setembro no Festival de Toronto, chegando aos ecrãs dos EUA no dia 22 de Novembro. 

>>> Trailer de Molly's Game + extracto de uma conversa com Aaron Sorkin na Loyola Marymount University, em 2016 + entrevista de CinemaBlend com Aaron Sorkin e Jessica Chastain, no ComicCon 2017.





Chelsea Wolfe em teledisco

Já sabíamos que Chelsea Wolfe vai lançar um novo álbum em Setembro. Começámos a conhecê-lo através do tema 16 Psyche que, agora, tem direito a tratamento em teledisco. Fiel ao seu intimismo surreal, a cantora californiana parece querer assumir as influências sonoras e figurativas de Marilyn Manson — et pour cause...

segunda-feira, agosto 14, 2017

Jacques Demy, aqui e agora (1/2)

A reposição de dois filmes de Jacques Demy é o grande evento cinéfilo deste Verão do nosso descontentamento — este texto foi publicado no Diário de Notícias (12 Agosto), com o título 'Quando a música é uma forma de erotismo'.

Vivemos um tempo de muitos delírios musicais, com streaming para todos os gostos, nostalgia do vinyl, concertos e mais concertos — sabemos mesmo que, por mais remota que seja a canção que queremos ouvir, o mundo virtual vai ajudar-nos a encontrá-la. Mas será que tudo isso constitui uma verdadeira memória? Podemos, agora, relançar a pergunta de modo insólito. Ou seja: quem se lembra do francês Jacques Demy?
Pois bem, naquele que é o mais belo acontecimento do nosso Verão cinematográfico, a distribuidora Midas Filmes repõe, em cópias digitais restauradas (a partir do dia 17, no cinema Ideal), duas obras-primas do cinema musical com assinatura de Demy: Os Chapéus de Chuva de Cherburgo (1964) e As Donzelas de Rochefort (1967).
JACQUES DEMY
(1931-1990)
Há qualquer coisa de “ovni” neste nome, até porque quando falamos de filmes musicais não nos lembramos do cinema francês, mas sim da idade de ouro de Hollywood — e convenhamos que Fred Astaire, Judy Garland ou Gene Kelly nos dão boas razões para celebrar tão glorioso período. Apesar de se ter revelado nos tempos heróicos da Nova Vaga francesa, Demy raras vezes surge citado ao lado de Jean-Luc Godard, François Truffaut ou Eric Rohmer.
Curiosamente, era o próprio que gostava de definir a sua primeira longa-metragem, Lola (1960), com Anouk Aimée, como um “musical sem música”, no sentido em que a sua exploração das convulsões do melodrama tinha qualquer coisa de musical. Demy via as relações humanas — e, em particular, as trocas amorosas — como um labirinto de temas e variações. Como se cada um de nós seguisse uma pauta de sentimentos e emoções que o parceiro do lado nem sempre reconhece. Daí as perturbantes dissonâncias. Daí também, em efémeros momentos de felicidade, as espectaculares harmonias — no cinema de Demy, a harmonia (musical ou afectiva) é uma forma de erotismo.

domingo, agosto 13, 2017

O Verbo e o Número [citação]

>>> O reino da retórica mobilizou discretamente o império da estatística. No princípio era o Verbo. No princípio será o Número.

RÉGIS DEBRAY
Gallimard, 2017

Maupassant no cinema

Que bom que é descobrir um filme que, realmente, se interessa pela literatura — este texto foi publicado no Diário de Notícias (10 Agosto), com o título 'Cinema e sensualidade'.

Vivemos um tempo em que os filmes nascem apenas porque alguém se lembra de usar um telemóvel (em movimentos agitados!) para registar qualquer coisa banalmente pitoresca... É um fenómeno da televisão e da Net, mas também do cinema profissional. Daí o bálsamo redentor que é A Vida de uma Mulher, de Stéphane Brizé, adaptando o romance Une Vie (publicado em 1883), de Guy de Maupassant.
Um velho preconceito poderá fazer pensar que se trata de enaltecer o filme “através” do objecto literário que o inspira. Nada mais errado — basta observar a avalancha de disparates televisivos que se vão fazendo em nome de muitas obras-primas literárias. Acontece que Brizé começa por integrar uma dimensão essencial da herança de Maupassant. A saber: a percepção das convulsões sociais (e, neste caso, muito em particular, dos dramas conjugais) através de uma permanente atenção à vibração dos corpos e olhares — e se isso se escreve, também se filma.
Tal como em A Lei do Mercado (2015), Brizé aplica um método que, à falta de melhor, apetece chamar sensual. Deparamos com uma ligação calorosa, um verdadeiro contrato expressivo estabelecido entre o olhar da câmara e os movimentos dos actores — tudo parece acontecer num ambiente improvisado, quase documental, mas a acumulação dos gestos e do tempo instala a sensação de uma tragédia suspensa.
Pressentimos, assim, a herança do mestre Max Ophüls que, aliás, adaptou alguns contos de Maupassant em O Prazer (1952). Tal como Ophüls, Brizé constrói os seus filmes a partir de uma elaborada discussão do próprio conceito de personagem social — assim acontecia em A Lei do Mercado, protagonizado por Vincent Lindon, assim volta a acontecer em A Vida de uma Mulher, com a admirável Judith Chemla. Em resumo: uma preciosidade cinematográfica.

Oneohtrix Point Never — uma banda sonora

Good Time é um thriller dos irmãos Ben e Joshua Safdie, apresentado, em Maio, na competição de Cannes. Filme menor, a meu ver, confundindo acção com multiplicação de agitação visual, mas com dois elementos a ter em conta:
— primeiro, a esforçada composição de Robert Pattinson, porventura capaz de ganhar alguma evidência no final do ano, na próxima temporada de prémios;
— depois, a brilhante banda sonora original, assinada por Oneohtrix Point Never (aliás, o talentoso Daniel Lopatin, compositor e produtor de uma música electrónica de estranha envolvência poética, cuja intensidade nasce, por vezes, de um obsessivo minimalismo); nela se inclui uma canção de desencantado romantismo, The Pure and the Damned, interpretada por Iggy Pop, também ele em tom minimalista.

Love, make me clean
Love, touch me, cure me

The pure always act from love
The damned always act from love

Every day I think about untwisting and untangling these strings I'm in
And to lead a pure life
I look ahead at a clear sky
Ain't gonna get there
But it's a nice dream, it's a nice dream

Death, make me brave
Death, leave me swinging

The pure always act from love
The damned always act from love
The truth is an act of love

Some day, I swear, we're gonna go to a place where we can do everything we want to
And we can pet the crocodiles

Love
The pure always act from love
The damned always act from love
That's love
The pure always act from love
That's love
The pure and the damned
The pure and the damned
Love
The damned