terça-feira, maio 22, 2018

Júlio Pomar (1926 - 2018)

[FOTO: Miguel A. Lopes]
Pintor do visível e do pressentimento do invisível, é uma figura nuclear na história da modernidade portuguesa: Júlio Pomar faleceu no dia 22 de Maio, no Hospital da Luz, em Lisboa — contava 92 anos.
A afirmação criativa de Pomar é indissociável, no plano político, da resistência ao Estado Novo e, em termos artísticos, da sensibilidade neo-realista — O Almoço do Trolha (1949) será a obra mais emblemática desse período. Ao longo das décadas de 60/70, o progressivo distanciamento das lutas políticas e o tempo vivido em Paris terão como consequência uma certa "libertação" das linhas e das cores, aceitando influências abstractas ou surreais, mas sem perder o contacto com um obstinado desejo de figuração — observem-se exemplos tão contrastados e, afinal, tão cúmplices nessa evolução como Entrada de Touros (1963), O Banho Turco (1971) ou Le Luxe (1979).
Significativo é o facto deste processo evolutivo conduzir Pomar a uma abordagem, tão sistemática quanto obsessiva, das figuras de alguns animais, com obrigatório destaque para a sua impressionante série de tigres. Os seus azulejos para a estação de Metro de Alto dos Moinhos, em Lisboa — integrando, em particular, as figuras de Luís de Camões e Fernando Pessoa —, decorrem de uma visão de dessacralização do próprio objecto artístico, expondo-se no lugar comum dos cidadãos, mas não rasurando os traços míticos da própria comunidade. Dir-se-ia que o Portugal pintado por Pomar é órfão da sua própria energia utópica. O Atelier-Museu Júlio Pomar, inaugurado em 2013, nasceu também como corolário institucional daquela visão, "procurando semear a liberdade do olhar, a postura crítica e a abertura que caracteriza o autor que lhe dá nome."

O ALMOÇO DO TROLHA (1949)
O BANHO TURCO (1971)
L' ÉTONNEMENT (1979)

>>> Obituário no Observador.
>>> Site do Atelier-Museu Júlio Pomar.
>>> Júlio Pomar no blog de Alexandre Pomar.
>>> Júlio Pomar no Museu Calouste Gulbenkian.

>>> Entrevista a Júlio Pomar, por Aurélio Gomes ['Baseado numa História Verídica', Canal Q, 2011]

domingo, maio 20, 2018

Na intimidade do Facebook

[TIME]
De que falamos quando falamos do Facebook? Ou ainda: porque é quando especulamos sobre aquilo que o Facebook devia ser, quase ninguém se confronta com aquilo que o Facebook é? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (13 Maio).

Vejo e revejo as imagens de Mark Zuckerberg, sentado, em postura oficial, a responder a uma comissão do Congresso dos EUA. São imagens reproduzidas vezes sem conta, ligadas às mais contrastadas considerações sobre o passado, presente e futuro dessa entidade a que ele deu o nome emblemático, entretanto mitológico, de Facebook.
Num tempo em que proliferam as “análises” sobre os elementos mais irrisórios do nosso mundo, não encontro qualquer empenho em pensar a própria designação de “rede social”. Perguntando, por exemplo, o que é que aconteceu para que, em poucos anos, a noção de “social” tivesse passado a existir como equivalente único dos links que podemos estabelecer com o vizinho do lado ou o anónimo do outro lado do planeta.
São cada vez menos os que se lembram que o “social” começa na soleira da nossa porta, não na ligação virtual que, eventualmente, nos permite perceber que um cidadão de uma remota aldeia dos confins de um continente de outro hemisfério consome a mesma marca de bolachas… Deprimente social.
A Rede Social
Não terei a ousadia de demonizar a felicidade dos que, todos os dias, vivem tais rituais de conhecimento virtual. Ainda assim, cinéfilo impenitente, não posso deixar de reparar como as recentes peripécias da vida de Zuckerberg têm servido para denegrir o filme que David Fincher realizou, em 2010, sobre o nascimento do Facebook – e que se chama, justamente, A Rede Social.
Admirável filme, digo eu. Mas não é um mero juízo de valor que está em causa. O que me parece desconcertante é o facto de tal reavaliação fazer parte de um processo mais geral de que Zuckerberg, sintomaticamente, tem sido o principal porta voz. A saber: importa superar todo este drama – 87 milhões de pessoas cujos dados pessoais foram tratados como mercadoria –, criando melhores condições técnicas de gestão dos elementos privados…
Evitemos as generalizações fáceis. Não rasuremos o facto de, melhor ou pior, o Facebook existir como factor incontornável do sistema contemporâneo de organização do espaço vivo dos humanos. O certo é que estamos a falar do triunfo de uma cultura (entenda-se: um sistema de relações e valores de vida) que considera “normal” que os dados mais pessoais – incluindo as imagens – sejam expostos e, de alguma maneira, doados como elementos de partilha global. Desde quando esta brutal reconversão da própria noção de intimidade (e dessa coisa outrora respeitada que e o pudor) se tornou um banal problema técnico? Onde esta um político para colocar essa pergunta?

sábado, maio 19, 2018

Hirokazu Kore-eda vence Cannes

Cannes 2018 teve um balanço tão interessante quanto perturbante. Três momentos da cerimónia de encerramento podem condensar os seus contrastes:
— Palma de Ouro para Une Affaire de Famille, de Hirokazu Kore-eda, filme deste tempo, subtil e crítico, sem ceder à vaga "política" que até podia ter transformado o festival num "comício" artístico: o júri não o permitiu e, em boa verdade, os filmes também não favoreceram tal esquematismo.
— uma Palma de Ouro Especial para Jean-Luc Godard, presente na competição com o luminoso Le Livre d'Image; como disse Cate Blanchett, presidente do júri, tratou-se de homenagear um artista que tem contribuído de modo exemplar para “definir e redefinir o que é o cinema”.
— o discurso de Aria Argento que, ao apresentar um dos prémios, utilizou a breve tribuna para lembrar o que lhe aconteceu em Cannes, em 1997, tinha 21 anos: “Fui violada aqui por Harvey Weinstein"; apontado para a assistência, acrescentou que há ainda cúmplices “sentados entre vocês”, concluindo: “Sabemos quem são, não vamos permitir que vivam na impunidade”.
Isto sem esquecer, para além de Le Livre d'Image, mais dois títulos de 5 estrelas: BlacKkKlansman, de Spike Lee, e Le Poirier Sauvage, de Nuri Bilge Ceylan.

>>> Palmaré no site oficial do Festival de Cannes.

CANNES: Ceylan

Admirável cineasta: já vencedor de uma Palma de Ouro (Sono de Inverno, 2014), o turco Nuri Bilge Ceylan volta a estar presente em Cannes com um espantoso filme — Le Poirier Sauvage/The Wild Pear Tree —, regressando às paisagens da Anatólia para fazer o retrato de um jovem que, depois de concluídos os estudos, volta à sua aldeia. Ao mesmo tempo crónica de um desencanto interior e panorama de uma comunidade alimentada por muitos silêncios e segredos, este é um filme cujo obsessivo realismo da vida social não exlui, antes parece reforçar, uma integração paradoxal, também realista, do mundo privado dos fantasmas. Tudo filmado com uma câmara RED (definição: 6K), verdadeiro prodígio capaz de elevar o detalhe da matéria viva à condição de pintura virtual.

quarta-feira, maio 16, 2018

CANNES: Lars von Trier

Porque é que Lars von Trier atrai, de imediato, o rótulo de "provocador"? E porque é que o horror do Big Brother televisivo nunca é classificado de tal modo? Eis algumas das perguntas que vale a pena (re)lançar a propósito de The House that Jack Built, o novo título de von Trier apresentado em Cannes (extra-competição). Digamos, para simplificar, que ao fazer o retrato de Jack (um regressado Matt Dillon) o cineasta dinamarquês retoma os temas obsessivos da omnipresença do mal e da impossibilidade de redenção. Em permanente diálogo com Verge (Bruno Ganz), Jack partilha connosco as agruras de uma reflexão em que já não há nenhuma natureza purificadora capaz de lavar os nossos pecados. O resultado, fascinante, consegue ser brutal e poético como uma pintura de Hieronymus Bosch — ou também já arrumaram Bosch no armários dos "provocadores"?

terça-feira, maio 15, 2018

CANNES: Spike Lee

[NYT]
Em 1978, o detective Ron Stallworth, oficial de polícia no estado do Colorado, conseguiu infiltrar-se na rede racista do Ku Klux Klan... O simples facto de Stallworth ser um indivíduo de pele negra torna a sua história um caso extraordinário no interior da história mais geral dos afro-americanos. Agora, Spike Lee revisita essas memórias em BlacKkKlansman, prodigiosa abordagem nas tensões raciais, com evidentes e assumidas ressonâncias no nosso presente — é, para simplificar, um dos filmes maiores de Cannes/2018, desses que são capazes de discutir, politicamente, a percepção do próprio real.

segunda-feira, maio 14, 2018

CANNES: Panahi

Behnaz Jafari e Jafar Panahi
O plano de abertura de 3 Visages, de Jafar Panahi, ficará, por certo, como um dos mais viscerais acontecimentos cinematográficos de Cannes/2018: uma jovem filma-se no seu telemóvel, dirigindo-se à actriz Behnaz Jafari e anunciando um fim trágico para a sua própria existência... Subitamente, o cinema reencontra esse esplendor material de, mais do que "reprodução" de vida, ser facto vital, implicando corpos e desejos. Depois, Jafari e o próprio Jafar Panahi (mais uma vez assumindo o seu próprio papel) empreendem uma viagem de prospecção que os leva — e nós com eles — a um Irão esquecido entre montanhas, marcado por muitas peculiaridades, incluindo o uso corrente da língua turca. Panahi filma o seu povo e, através dele, a dificuldade, por certo eufórica, de ser cineasta. As autoridades do Irão não permitiram que Panahi viajasse até à Côte d'Azur, mas o seu filme não deixa de ser um belíssimo périplo através da utopia de liberdade que as imagens e os sons transportam.

domingo, maio 13, 2018

CANNES: Godard

Godard contra o resto do mundo?... Não exactamente — há mesmo nele um desejo de comunicação tecido através da contemplação de uma infinitude de diferenças. O certo é que temos sempre a sensação de que há o cinema de Jean-Luc Godard e, do outro lado, o resto do mundo. Aliás, corrijo: o cinema godardiano habita o mundo, transfigurando-o, levando-nos a repensar certezas e ideias feitas. Le Livre d'Image, objecto sublime, é mais um capítulo dessa viagem arfante por memórias históricas e cinéfilas, desembocando nas convulsões contemporâneas do mundo árabe — um filme para ler como um livro, reavaliando, não apenas a arte de olhar, mas a capacidade de ver.