terça-feira, outubro 17, 2017

U2: inocência e experiência
— SOUND + VISION Magazine [21 Out.]

Estaremos de regresso à FNAC, no dia 21, para uma sessão dedicada aos U2. Pretexto imediato: o lançamento do seu 14º álbum de estúdio, Songs of Experience, registo que "completa" o anterior Songs of Innocence (2014). Programa de trabalho: percorrer as quatro décadas de carreira da banda irlandesa, revisitando sons e imagens, canções e concertos — para já, ficamos com o "lyric video" de You’re the Best Thing About Me, primeiro single de Songs of Experience.


* FNAC: Chiado, 21 Outubro (18h30)

segunda-feira, outubro 16, 2017

A herança dos irmãos Lumière

* LUMIÈRE!, de Thierry Frémaux
[DN, 05-10-17)]

Além de programador do Festival de Cannes, Thierry Frémaux tem desenvolvido, na qualidade de director do Instituto Lumière, em Lyon, uma importante actividade de gestão, preservação e restauro do património dos irmãos Lumière. Este filme é uma consequência directa do seu trabalho, sendo constituído por uma colagem de algumas dezenas de pequenos filmes de um minuto de duração (50 segundos, para sermos rigorosos), rodados pelos Lumière e seus operadores entre 1895 e 1905.
São matérias essenciais dos primeiros capítulos da história do cinema, devidamente contextualizados pelos comentários, em off, do próprio Frémaux. A nostalgia da descoberta envolve, assim, a pedagógica revelação das proezas dos Lumière, desde a arte do enquadramento até à subtileza de um olhar documental seduzido pelos mais diversos elementos de ficção.

domingo, outubro 15, 2017

King Krule: punk + hip hop + jazz

Archy Marshall, 24 anos, nascido em Londres — nome artístico: King Krule. Foi uma das grandes revelações de 2013 (portanto, aos 19 anos) e continua a convocar-nos para paisagens musicais de estranha e envolvente pluralidade: as suas raízes punk derivam constantemente para um austero hip hop, não poucas vezes à beira de uma secura típica de um tempo de spoken word, enfim, integrando ziguezagues, improvisados ou não, de genuína sensibilidade jazzística.
O novo álbum de King Krule, terceiro da sua conta pessoal — depois de 6 Feet Beneath the Moon (2013) e A New Place 2 Drown (2015), este assinado como Archy Marshall — chama-se The Ooz e já tinha sido apresentado através do tema Czech One. Vale a pena ler a entrevista dada à NPR, evocando algumas influências juvenis, de Nirvana a Jimi Hendrix, passando por Marvin Gaye (decididamente, o rapaz cuida da sua saúde musical) e também explicando a origem do título The Ooz. Entretanto, aqui fica o registo de mais duas canções: Dum Surfer e Half Man Half Shark.



Academia de Hollywood
expulsa Harvey Weinstein

The Hollywood Reporter
O produtor Harvey Weinstein foi expulso da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. A decisão, tomada pelo 'Board of Governors' (colectivo dirigente que, entre os seus 54 membros, inclui Steven Spielberg, Tom Hanks, Whoopi Goldberg, Kathleen Kennedy e Michael Mann) surge na sequência da divulgação de episódios de assédio sexual por parte de Harvey Weinstein a dezenas de mulheres (decisivo no processo de revelações das últimas duas semanas foi um artigo publicado pelo New York Times). A decisão da Academia ocorre seis dias depois de Harvey Weinstein ter sido despedido da sua própria empresa, The Weinstein Company — o comentário que se segue foi lido na Antena 1 (14 Outubro).

Hollywood está a viver uma tragédia que bem podia ser assunto de um dos seus muitos filmes de auto-crítica — aliás, não nos admiremos que, um dia destes, se produza mesmo um filme sobre a ascensão e queda de Harvey Weinstein.
Escusado será dizer que os actos de assédio de que Weinstein é acusado revelam um sinistro menosprezo pelas mulheres e pelo universo feminino.
Mas não é fácil falar do assunto. Sobretudo não me parece fácil — aliás, não me parece adequado — falar dele como se fosse apenas um episódio revelador dos bastidores de Hollywood.
Acontece que, apesar de tudo, algo mudou nos valores e nas instituições. Ao assumir a decisão de expulsar Weinstein, a Academia não está a fazer um juízo de valor global sobre Hollywood — está, creio eu, a reflectir uma evolução social que, com mais ou menos contradições, envolve a condenação de todos os comportamentos machistas contra as mulheres.
Seja como for, não é possível apagar a ligação do nome de Weinstein a dezenas de títulos fundamentais na história moderna do cinema americano, incluindo, por exemplo, Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, O Paciente Inglês, de Anthony Minghella, e Gangs de Nova Iorque, de Martin Scorsese.
Agora, ficámos a conhecer o lado mais sombrio do produtor desses filmes, mas os filmes são mais fortes do que o seu produtor.

* * * * *

A trajectória de Harvey Weinstein condensa uma espécie de utopia de produção: ele foi o mago dos independentes que acabou por conquistar um estatuto de igualdade com os grandes estúdios de Hollywood — este breve perfil foi publicado no Diário de Notícias (13 Outubro), com o título 'A saga da produção independente'.

Estamos confrontados com mais um dramático paradoxo da história e da mitologia do cinema: Harvey Weinstein deu entrada na galeria da infâmia de Hollywood depois de ter ocupado um lugar central, profundamente influente, na saga da produção independente das últimas décadas. Em boa verdade, a designação é, também ela, paradoxal: sempre em aliança com o irmão, Bob Weinstein, ele ajudou a definir os parâmetros de uma produção independente capaz de atrair e integrar nomes que pertencem à “lista A” de Hollywood.
Ao criarem a companhia de distribuição Miramax, em 1979, os irmãos Weinstein superaram as fronteiras tradicionais dos independentes encerrados num nicho sem comunicação com as outras componentes do mercado. Em 1989, Sexo, Mentiras e Vídeo, de Steven Soderbergh, terá sido o símbolo exemplar da sua estratégia, com o jovem Soderbergh (26 anos) a arrebatar a Palma de Ouro em Cannes.
A consolidação da Miramax passou, assim, antes do mais, pelo apoio a valores emergentes nos EUA: Quentin Tarantino poderá ser o símbolo exemplar, mantendo-se ligado aos Weinstein desde a estreia na realização com Cães Danados (1992); aliás, com ele, a companhia conseguiu uma das suas vitórias mais espectaculares, ganhando nova Palma de Ouro, em 1994, com Pulp Fiction. Ao mesmo tempo, a Miramax apostou na distribuição de valores fortes do cinema internacional nas salas americanas, incluindo Peter Greenaway (Os Livros de Próspero, 1991), Jane Campion (O Piano, 1993) ou Danny Boyle (Trainspotting, 1996).
Em qualquer caso, a Miramax foi-se transfigurando a partir de 1993, quando foi adquirida pelos estúdios Disney. O sucesso de Pulp Fiction é já desse período, tal como o triunfo nos Oscars de O Paciente Inglês (1996), de Anthony Minghella, e A Paixão de Shakespeare (1998), de John Madden. Em 2005, os irmãos Weinstein decidiram abandonar a Miramax, fundando The Weinstein Company.
Actualizando a lógica da Miramax, a nova companhia foi construindo um catálogo em que Tarantino permaneceu como nome fundamental, através de sucessos como Sacanas sem Lei (2009) e Django Libertado (2012). Integram esse catálogo vários filmes de prestígio, alguns “oscarizados”, com destaque para O Sonho de Cassandra (2007) e Vicky Cristina Barcelona (2008), ambos de Woody Allen, O Discurso do Rei (2010), de Tom Hooper, ou Paddington (2014), a popular comédia britânica de Paul King. Na prática, The Weinstein Company conseguiu recuperar o cognome que já pertencera à Miramax: o “maior dos pequenos” estúdios de Hollywood.

>>> Sobre Harvey Weinstein [notícias e artigos de opinião]: The New York Times + The Washington Post.

sexta-feira, outubro 13, 2017

"Halloween" em sexta-feira, 13

Já sabíamos que John Carpenter vai lançar uma antologia com temas que compôs para os seus filmes. Agora, numa calculada celebração dos incidentes do calendário (sexta-feira, 13...), podemos escutar o tema de Halloween (1978) revisto e reinventado por Trent Reznor and Atticus Ross (Nine Inch Nails, para os amigos) — aqui fica o registo, recordando, em baixo, o trailer original do filme.



A IMAGEM: Cedric Buchet, 2017

CEDRIC BUCHET
Porter Magazine
Outono/Inverno 2017

quinta-feira, outubro 12, 2017

Ténis vs. cinema

* BORG vs. McENROE, de Janus Metz
[ DN, 05-10-17 ]

A rivalidade entre o sueco Björn Borg e o americano John McEnroe, culminando na final do torneio de Wimbledon, em 1980, é um capítulo lendário da história do ténis, em grande parte exponenciado pelas transmissões televisivas. Ao lidar com tais memórias, o filme do dinamarquês Janus Metz não só sabe evitar qualquer colagem simplista às matrizes televisivas, como transfere o drama para a teia de cumplicidades e diferenças que envolve o confronto de Borg e McEnroe.
O resultado é um inesperado e subtil filme “psicológico” sobre o ténis, fortemente apoiado no trabalho dos actores: Shia LaBeouf compõe com surpreendente rigor um McEnroe assombrado pelos seus próprios excessos, mas o destaque vai para Sverrir Gudnason, representando Borg como uma vulcão contido, lutando momento a momento para aquietar os seus fantasmas.

The Doors — os singles

Sejamos realistas: mesmo com revivals em tom mais ou menos apoteótico, a história de The Doors é a história que envolve Jim Morrison (1943-1971). A sua poesia, a sua voz e também a sua pose são os símbolos primeiros da banda em que foi companheiro de Ray Manzarek (teclados), Robby Krieger (guitarra) e John Densmore (bateria). A inconfundível sonoridade que produziram através de álbuns como Strange Days (1967), Morrison Hotel (1970) ou L.A. Woman (1971) surge agora organizada através de uma memória de singles: The Doors - The Singles aí está com nada mais nada menos que 44 canções (People Are Strange, Hello, I Love You, Riders on the Storm, etc., etc.) que, por vezes, geraram singularíssimos momentos televisivos — eis Touch Me, do álbum The Soft Parade (1969), com direito a inesperado acompanhamento, incluindo violinos.

quarta-feira, outubro 11, 2017

"Blade Runner": o futuro aqui tão perto (2/2)

Com "Blade Runner 2049", o realizador Denis Villeneuve assume-se como brilhante herdeiro do filme dirigido por Ridley Scott há 35 anos — este texto foi publicado no Diário de Notícias (5 Outubro), com o título 'A arte de contar histórias'.

[ 1 ]

Pertenço à geração que, ainda na adolescência, descobriu os prodígios de 2001: Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick. Dito de outro modo: no começo da década de 80, o impacto de Blade Runner, de Ridley Scott, não correspondeu, para mim, a um fenómeno fundador. Reconhecer tal diferença de visão não envolve qualquer menorização da importância histórica e técnica do filme de Scott — trata-se apenas de recordar que a possibilidade de um filme abrir um novo ciclo (temático, estético, simbólico, etc.) não pode ser desligada das diferenças naturais dos seus espectadores.
Se recordo tais diferenças, não é por qualquer impulso nostálgico. Trata-se tão só de perguntar de que modo o novo e admirável Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve, irá mobilizar (ou não) os espectadores mais jovens. Não é uma dúvida de “gosto”. Acontece que há, pelo menos, uma geração que tem sido (des)educada a partir da noção simplista segundo a qual as virtudes do espectáculo decorrem apenas da acumulação dos célebres... efeitos especiais.
O paradoxo é evidente e sugestivo. Assim, Blade Runner 2049 impõe-se como invulgar colecção de proezas técnicas, das mais assombrosas que vimos nas últimas décadas. Ao mesmo tempo, convém não simplificar: o seu fulgor tem como base um sofisticado trabalho de escrita de argumento em que se cruzam referências que vão do clássico filme “noir” ao melodrama, passando pelas presenças (virtuais) de Elvis Presley, Marilyn Monroe e Frank Sinatra. No limite, o que está em jogo é o futuro da própria arte de contar histórias. Dir-se-ia que, procurando revalorizar os valores e o prazer de um cinema enraizado nessa arte, Blade Runner 2049 é um filme que, através dos replicantes, não desistiu da dimensão humana. E do nosso desesperado humanismo.

Alain Delon por Jean-Pierre Melville

O OFÍCIO DE MATAR (1967)
A retrospectiva de Jean-Pierre Melville é um dos acontecimentos centrais na 18ª edição da Festa do Cinema Francês — este texto foi publicado no Diário de Notícias (8 Outubro), com o título 'Alain Delon em tom abstracto'.

Integrada na Festa do Cinema Francês, a Cinemateca apresenta, até dia 18, uma retrospectiva de Jean-Pierre Melville (1917-1973), por certo um dos autores mais esquecidos da Nova Vaga francesa. De facto, por desconhecimento ou preconceito, o seu nome raramente surge associado a esses tempos gloriosos — convenhamos que tal exclusão talvez não desagradasse ao próprio Melville.
Assim, é verdade que Melville foi absolutamente contemporâneo das criações dos novos autores, tendo mesmo participado, num pequeno papel de um escritor americano, em À Bout de Souffle/O Acossado (1959), primeira longa-metragem de Jean-Luc Godard e um dos títulos fundadores do movimento. O certo é que o seu trabalho, pelo menos desde Bob le Flambeur (1955), foi conduzido por uma obsessão, não exactamente contrária, mas alheia às propostas dos cineastas da Nova Vaga: ele é, afinal, um metódico discípulo das regras do filme de gangsters “made in USA”, procurando criar dispositivos formais que tendem para uma gloriosa abstracção.
Semelhante visão não esgota a sua obra, quanto mais não seja porque nela encontramos, por exemplo, um objecto tão singular e perturbante como Léon Morin, Prêtre/Amor Proibido (1961) protagonizado por um Jean-Paul Belmondo nos antípodas da sua própria imagem em À Bout de Souffle. Contracenando com Emmanuelle Riva, no papel de uma jovem viúva, militante comunista, Belmondo interpreta um padre compelido a reavaliar os seus valores na França ocupada pelos alemães.
Em qualquer caso, Alain Delon será o actor mais adequado para simbolizar o universo de Melville e, em particular, a sua fixação numa solidão radical (em que muitos viram uma duplicação da sua condição artística). Dirigiu-o em três filmes magníficos: Le Samouraï/O Ofício de Matar (1967), Le Cercle Rouge/O Círculo Vermelho (1970) e Un Flic/Cai a Noite sobre a Cidade (1971), este um brilhante cruzamento do policial com o melodrama, com Catherine Deneuve a contracenar com Delon.
Le Samouraï distingue-se pela sua depuração formal, ainda que sem qualquer esgotamento formalista. Bem pelo contrário, quanto mais os gestos, olhares e cenários parecem pertencer a uma paisagem fora da história dos homens comuns, mais se acentua o envolvimento da mise en scène de Melville com as sombras do comportamento em que, conscientemente ou não, todos nos reconhecemos. Interpretando um assassino profissional de nome Jeff Costello, Delon habita o filme como um fantasma demasiado humano, quer dizer, uma personagem visceralmente trágica.