sexta-feira, janeiro 19, 2018

"Estátua de Fernando Pessoa
acusada de assédio sexual" [citação]

>>> Notícia do dia: a estátua de Fernando Pessoa, no Chiado, foi acusada de assédio sexual. Segundo relatos de várias turistas, quando estas se sentaram ao colo do poeta para tirarem a fotografia da praxe ele apalpou-as — voltaremos a este tema quando tivermos mais novidades.

Antena 1
19-01-2018

quinta-feira, janeiro 18, 2018

Sorkin & Chastain (2/2)

Aaron Sorkin escreveu e realizou, Jessica Chastain interpreta: Jogo da Alta Roda é, entre nós, uma das primeiras grandes estreias de 2018 — este texto foi publicado no Diário de Notícias (4 Janeiro), com o título 'Aaron & Jessica'.

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Alfred Hitchcock e Grace Kelly. John Ford e John Wayne. Jean-Luc Godard e Anna Karina. Sydney Pollack e Robert Redford. André Téchiné e Catherine Deneuve. A história do cinema apresenta-nos muitas relações de trabalho entre realizadores e intérpretes que distinguimos pela singularidade dos seus resultados. Sentimos mesmo que há actores e actrizes que, independentemente do brilhantismo de outras composições, exibem um suplemento (de alma, talvez) quando dirigidos por determinados cineastas.
Molly's Game
É cedo para dizer se Aaron Sorkin e Jessica Chastain têm, ou vão ter, uma relação desse teor — Jogo da Alta Roda é, afinal, a primeira realização de Sorkin. Em qualquer caso, a sua maneira de contar a história de Molly Bloom, promotora de jogos de poker, é tanto mais fascinante quanto o filme vai escapando, ponto por ponto, às soluções mais fáceis e, sobretudo, mais moralistas que tal história podia atrair.
Especialmente interessante (porventura frustrante para alguns espectadores) é a frieza erótica que contamina todos os aspectos do filme. Sedução do dinheiro? Transfiguração de Molly em objecto de desejo por causa do dinheiro que manipula? Atracção feérica da “alta roda” que, com algum simplismo, está no título português? Nada disso. Este é, de facto, um filme sobre o jogo de Molly (recorde-se o título original: Molly’s Game) e o seu enigma primordial cujo assombramento ela parece querer superar através da própria vertigem de milhões de dólares em que se envolve. Daí a beleza radical da cena com que Sorkin decide encerrar o seu filme. Explicando o enigma de Molly? Sim, até certo ponto, mas sobretudo mostrando que a identidade de um ser humano não cabe em nenhum cliché dramático — chama-se a isso ser um grande narrador.

quarta-feira, janeiro 17, 2018

A caminho dos OSCARS
— NAACP escolhe "Girls Trip"
como filme do ano



A National Association for the Advancement of Colored People, organização fundada em 1909 para defesa dos interesses dos cidadãos afro-americanos, atribuiu, a 15 de Janeiro, os seus prémios, abrangendo as áreas de cinema, televisão, música e literatura. Ava DuVernay que, em 2014, dirigiu Selma: A Marcha da Liberdade, foi consagrada como "entertainer do ano". A comédia Girls Trip, de Malcolm D. Lee, recebeu o prémio de filme do ano — lista integral dos prémios no site da NAACP.

* Filme — GIRLS TRIP, de Malcolm D. Lee [trailer]
* Actor — Daniel Kaluuya, FOGE
* Actriz — Octavia Spencer, GIFTED
* Filme independente — DETROIT, de Kathryn Bigelow


2001 & Stanley Kubrick
— SOUND + VISION Magazine, FNAC [dia 21]

Este é o ano em que 2001: Odisseia no Espaço faz 50 anos — Nuno Galopim e João Lopes propõem uma revisitação desse clássico da ficção científica, ao mesmo tempo evocando a filmografia de Stanley Kubrick.

* FNAC: Chiado, 21 Janeiro (18h30)

Para ouvir antes e depois de ver

É um dos filmes de que mais se fala. E com razão... Chama-me Pelo Teu Nome (no original Call Me By Your Name) foi o melhor que vi em 2017 (na Berlinale), tem colhido entusiasmo por onde tem estreado. E esta semana chega aos ecrãs portugueses. Antes de aqui falarmos do filme, fica hoje uma breve nota sobre a banda sonora. Porque é um objeto igualmente precioso, tendo resultado de um trabalho de seleção de gravações e de novas “encomendas” feito pelo próprio Luca Guadagnino e ajudam a definir o espaço, o contexto, as próprias personagens e, acima de tudo, a alma (ou como se poderia dizer em inglês o “feel”) do filme.

O grosso da banda sonora resulta de um processo de seleção de peças de discos já existentes. E aí coexistem as marcas que vincam o lugar e o período em que ação decorre (ou seja, a Itália na primeira metade da década de 80) e o facto de Elio (uma das personagens centrais) tocar piano. Entre a pop e peças clássicas para piano surge assim o corpo maior de um conjunto de temas que ora assinalam o reencontros e descobertas. John Adams, cuja música foi peça determinante na construção quase operática de Eu Sou o Amor, regressa com um excerto de Hallelujah Junction. Peças de Satie, Ravel ou Bach sublinham a presença do piano, que tem aqui em Ryuichi Sakamoto outro nome de referência, com o facto curioso de uma das composições, Germination, ser uma transcrição para piano de um momento da banda sonora de Feliz Natal Mr. Lawrence, de Nagisa Oshima.

A maioria das canções que povoam a banda sonora servem o B.I. de tempo e lugar do filme, com marcas da memória da pop mainstream de então, desde os terrenos europop de Paris Latino (Bandolero) ou da própria música italiana (recuperando nomes como os de Franco Battiato, Lordeana Bertè e Marco Armani) a “êxitos” que fizeram história por aqueles dias como Words de FR David ou Lady Lady Lady, de Giorgio Moroder e Joe Esposito (que surgiu originalmente na banda sonora de Flashdance). Há uma presença indie para vincar uma certa mudança de registo que traduz talvez ecos do percurso da narrativa (e não vou fazer spolier) ao som dos Psychedelic Furs. E, depois, a cereja sobre o bolo com a presença de três temas de Sufjan Stevens. Um deles é uma remistura de Futile Devices (do álbum The Age of Adz). Os outros na verdade são o resultado do desafio que o realizador lançou ao músico. Pediu-lhe um tema... E Sufjan fez dois... Assim nascem Mistery of Love e o belíssimo Visions of Gideon, que juntam não só elementos artística e emocionalmente marcantes ao filme como assinalam novos episódios na obra de um dos grandes músicos do nosso tempo.

terça-feira, janeiro 16, 2018

Quem é John Carpenter?

Afinal, quem é John Carpenter?... O explorador da herança da métrica de Howard Hawks e das emoções de Alfred Hitchccok, criando uma nova música para o suspense através de Assalto à 13.ª Esquadra (1976)? Ou, justamente, um compositor de músicas, para esse e outros dos seus filmes, indissociáveis de todo um elaborado conceito do tempo narrativo? Um pioneiro dos mais modernos efeitos visuais de transfiguração dos corpos, criando essa ópera do género de terror que é The Thing/Veio do Outro Mundo (1982)? Ou, explorando as ambivalências dos heróis em As Aventuras de Jack Burton nas Garras do Mandarim (1986), um crítico sarcástico das modernas variações do género de aventura?
Digamos que Carpenter é tudo isso... e algo mais. Há nele um gosto elaborado da narrativa, seus tempos, convulsões e silêncios, que, mesmo quando aplica as mais sofisticadas técnicas, o demarca da turma irresponsável dos efeitos especiais. Além do mais, nasceu no dia 16 de Janeiro de 1948, o que quer dizer que celebra hoje 70 anos — congratulations!

>>> Trailer de Halloween (1978) + teledisco de Distant Dream (2016).




>>> Site oficial de John Carpenter.

Madalena Iglésias (1939 - 2018)

Celebrizada pela sua vitória no Festival da Canção de 1966, a cantora Madalena Iglésias faleceu numa clínica de Barcelona, cidade onde vivia — contava 78 anos.
Figura emblemática do chamado "nacional-cançonetismo", a par, por exemplo, de António Calvário, a sua época de maior sucesso ficou também registada em cinema, através de filmes como Uma Hora de Amor (1964), de Augusto Fraga, e Sarilhos de Fraldas (1967), de Constantino Esteves — em ambos contracenava com Calvário. De qualquer modo, foi a interpretação de Ele e Ela, tema vencedor do Festival da Canção de 1966, que ficou como símbolo mais forte da sua carreira; com letra e música de Carlos Canelhas, Ele e Ela ilustra uma certa pop dançante dos anos 60, neste caso valorizada pela orquestração de Jorge Costa Pinto — na edição desse ano do Festival da Eurovisão, realizada no Luxemburgo, obteve 6 pontos, ficando em 13º lugar (num total de 18 países concorrentes).
Silêncio Entre Nós, Poema de Nós Dois ou Canção Que Alguém Me Cantou foram outros momentos marcantes na sua trajectória artística, também com algum impacto noutros países, em particular no mercado de língua espanhola. Em 1972, abandonou os palcos e as gravações. A fotobiografia O Meu Nome é Madalena Iglésias, da autoria de Maria de Lurdes Carvalho, foi lançada em 2009.

>>> Ele e Ela no final do Festival da Canção de 1966, com apresentação de Henrique Mendes.


>>> Obituário no Diário de Notícias.

O "Big Brother" contra Antonioni

David Hemmings em Blow-up (1966) 
Chegámos ao ponto em que o fundamentalismo sexual se atreve a difamar Michelangelo Antonioni — este texto foi publicado no Diário de Notícias (14 Janeiro), com o título 'É preciso defender Antonioni'.

Desde o ano 2000, o Big Brother e as suas derivações são uma presença regular no espaço televisivo português. Aí assistimos a um metódico programa de achincalhamento humano, envolvendo três componentes principais: encenação “voyeurista” da sexualidade, redução dessa sexualidade a tabelas de performances genitais e transformação das mulheres em objectos instrumentais de qualquer relação sexual.
A maioria dos discursos políticos, do esvaziamento intelectual das direitas à vocação moralista das esquerdas, mantém-se indiferente a tudo isso. É fácil, por exemplo, um dia depois da morte de Manoel de Oliveira, rasurar décadas de insultos e difamações, consagrando-o como um “mestre”; é francamente mais difícil dizer alguma coisa de consistente sobre o sistema de imagens que habitamos.
Michelangelo Antonioni
Não se trata de uma questão especificamente portuguesa, como é óbvio. Veja-se, na imprensa francesa, os protestos suscitados pelo notável texto de uma centena de mulheres sobre a vaga de acusações de assédio sexual (Le Monde, 9 Janeiro). Tais protestos seguem uma lógica pueril: empolam uma palavra ou uma expressão, omitem o seu contexto (o longo texto surgiu quase sempre reduzido a equívocos fragmentos) e apelam à queima dos infiéis na fogueira “social”. Há mesmo quem argumente que as signatárias — as actrizes Ingrid Caven e Catherine Deneuve, a escritora Catherine Millet, a editora Joëlle Losfeld, etc. — estão a branquear a gravidade dos crimes de que é acusado, por exemplo, Harvey Weinstein. Aliás, nos EUA, aconteceu algo semelhante a Matt Damon: veio apenas solicitar que se use a inteligência — não fazendo equivaler a violência de uma violação à gravidade de um gesto obsceno num cenário de emprego — e tanto bastou para que fosse rotulado de monstro machista. A actriz Minnie Driver colocou-se mesmo do outro lado da sua (imaginária) barreira, dizendo que “os homens não podem compreender”.
Está, assim, transformado numa arena de muitos ruídos e nenhuma ideia aquilo que seria um bom contexto de reflexão sobre o masculino/feminino e, em particular, os dispositivos mediáticos que, em nome da “sensualidade”, reduzem as mulheres a objectos sexuais (e, não poucas vezes, também os homens). Como lembra o texto das mulheres francesas, há até fundamentalismos apostados em desqualificar a obra-prima de Michelangelo Antonioni, Blow-up (1966), por causa da sua “misoginia”... Como? Será crime ter descoberto o cinema através das Novas Vagas europeias dos anos 60/70? Era o que mais faltava.

segunda-feira, janeiro 15, 2018

Dolores O'Riordan (1971 - 2018)

Célebre como vocalista de The Cranberries, dona de um voz de muitas nuances poéticas, a irlandesa Dolores O'Riordan faleceu no dia 15 de Janeiro, em Londres — contava 46 anos.
O falecimento ocorreu, subitamente, de causas não imediatamente esclarecidas, quando O'Riordan se encontrava em Londres, para uma sessão de gravações. Iniciara uma carreira a solo em 2007, com o álbum Are You Listening?, seguindo-se, dois anos mais tarde, No Baggage. Em qualquer caso, a sua imagem é indissociável de The Cranberries e dos seus sofisticados cruzamentos de heranças folk com a sensibilidade de um rock alternativo; na década de 90, em particular, a banda obteve grande impacto internacional com os álbuns Everybody Else Is Doing It, So Why Can't We? (1993) e No Need to Argue (1994), e temas como Linger, Zombie ou Ode to My Family.
Depois de um hiato entre 2004 e 2008, o grupo voltara a reunir-se em 2009; em 2017, a sua digressão europeia não chegou ao fim, devido a problemas de saúde de O'Riordan — nesse mesmo ano, saíu Something Else, derradeiro álbum de The Cranberries, em parte retomando alguns dos seus sucessos, agora em versão acústica.

>>> Telediscos de Zombie (The Cranberries) e Ordinary Day (Dolores O'Riordan).




>>> Obituário na BBC.

"Este clima de censura" [citação]

>>> Assinei este texto [Le Monde] por uma razão que, a meu ver, é essencial: o perigo da purificação nas artes. Sade na Pléiade vai ser queimado? Leonardo da Vinci vai ser designado como um artista pedófilo e os seus quadros queimados? Vão retirar os Gauguin dos museus? Destruir os desenhos de Egon Schiele? Proibir os discos de Phil Spector? Este clima de censura deixa-me sem voz e inquieta pelo destino das nossas sociedades.

CATHERINE DENEUVE
Tribuna / Libération
14-01-2018

Para sentir saudades...


E, de uma assentada apenas, dois reencontros. Daqueles que fazem entender o sentido da palavra “saudade”. Porque os não víamos há já algum tempo. E, mais ainda, porque deixam saudade ao ficar evidente (sem surpresa) como eram bem melhores no que faziam do que aqueles que, entretanto, tomaram os seus lugares... Apresentador, durante 33 anos, de um talk show em formato “late night” (primeiro na NBC, de 1982 a 1993, e depois na CBS, de 1993 a 2015), David Letterman é figura maior na história da televisão americana. A ausência do pequeno ecrã nos últimos três anos termina com o regresso num modelo que pode fazer escola: uma entrevista mensal (no Netflix), com um convidado de renome, no qual a conversa pode fluir sem a pressa nem a agenda habitual num talk show diário.

A barba “bíblica” como a descreve Barack Obama é a nova imagem com a qual se apresenta. Mas a arte da conversa e a inteligência do humor são os de sempre. É bom ter de volta David Letterman. Obama foi, claro, o primeiro convidado numa temporada que, mais adiante levará àquele mesmo estúdio de televisão figuras como as de George Clooney, Malala Yousafzai, Jay-Z, Tina Fey e Howard Stern.

A escolha para o primeiro episódio não podia ter sido melhor. Foi a primeira entrevista que Obama deu depois de ter deixado a Casa Branca. E mesmo tendo-se falado da “casa” que ocupou durante oito anos, a verdade é que não foi sequer preciso falar do atual inquilino para que o óbvio se fizesse notar: as diferenças são abissais, pois são. E em todas as frentes, tanto no conteúdo das palavras trocadas como na forma do discurso. Uma plateia, com saudade, ouvia-o atentamente no estúdio. E Letterman não escondeu também essa saudade. Aqui e ali com uma farpa de humor bem lançada. Neste primeiro episódio Obama e Letterman falam de política. E até mesmo do que é a presidência. Mas o diálogo flui entre o plano pessoal e o coletivo com espaço para revelar, por um lado, o que foi o ano seguinte na vida de Obama e, ao mesmo tempo, mergulhar em histórias do seu passado (nomeadamente a relação com os seus pais), dividindo bem o tempo para ceder ainda espaço a reflexões sobre a sociedade e a política. E num segmento em que o programa sai de estúdio vemos Letterman a atravessar com o senador John Lewis a mítica ponte em Selma, no Alabama, que assistiu em 1965 a um episódio marcante na história da luta pelos direitos civis que, entre as suas consequências, teve a eleição do próprio Obama para a presidência dos EUA.

No fim do programa fica a sensação de uma boa hora de televisão. E saudades... Mas de as de David Letterman podemos novamente resolver em fevereiro com George Clooney, já as de Barack Obama são um caso, para já, mais complicado... Mas servem para que pensemos no nosso futuro.

 

domingo, janeiro 14, 2018

O primeiro ano [citação]

>>> Até agora, durante a sua presidência, passou um dia em cada três numa das suas luxuosas propriedades; tendo ridicularizado Obama pelo tempo passado fora, Trump jogou golfe, segundo uma contagem, 75 vezes em 2017. Quer isso dizer que, em média, jogou golfe seis vezes por mês, o que seria bastante mesmo se ele fosse um simpático reformado da Florida. Coisa que ele não é.

MICHAEL DUFFY, NANCY GIBBS
'The Unpresident: Why Donald Trump Will Never Change'
in Time (11-01-2018)

A imitação de Churchill

Ainda há quem considere que fazer história é imitar gestos e poses das suas personagens principais: tarefa menor que, pelos vistos, vai valer um Oscar a Gary Oldman — este texto foi publicado no Diário de Notícias (10 Janeiro), com o título 'Churchill com muita maquilhagem e pouco cinema'.

Winston Churchill em herói de filme de guerra? É verdade. Digamos que, por isso, A Hora Mais Negra merece o benefício da dúvida. Pela grandeza e importância histórica da figura retratada. Mas sobretudo porque já é tempo de o cinema, em especial no espaço anglo-saxónico, reagir à formatação imposta por muitos filmes de (super) heróis saturados de rotineiros efeitos visuais e bandas sonoras agressivas.
É mesmo verdade: estamos perante um filme que aposta na dimensão épica do primeiro-ministro britânico quando, em 1940, demarcando-se de algumas vozes do seu gabinete, mobilizou o país contra a ameaça nazi. Resta saber que ideias cinematográficas A Hora Mais Negra tem para lidar com tão fascinante personagem e tão complexo período histórico.
Decididamente, algum do mais recente cinema inglês parece querer compensar a falta de ideias narrativas com a ostentação de próteses nos seus actores. No recente Um Crime no Expresso do Oriente, Kenneth Branagh expunha-se ao ridículo de compor a personagem do detective Hercule Poirot com um bigode tão imponente que transformava cada cena num mero exercício de equilíbrio com o peso da maquilhagem... Agora, o departamento de caracterização empenhou-se em tratar o rosto de Gary Oldman de modo a criar um Churchill “mimético”, favorecendo uma interpretação tão mecânica que somos levados a supor que a maquilhagem tolhe os movimentos do actor.
A dimensão caricatural do empreendimento seria benigna, não se desse o caso de o realizador Joe Wright esbanjar, assim, as lições de uma nobre tradição do filme de guerra, fundamental na história do cinema inglês. Para nos ficarmos pelo essencial, podemos evocar o trabalho da dupla Michael Powell/Emeric Pressburger, com destaque para esse filme prodigioso que é Um Caso de Vida ou de Morte (1946). Era uma epopeia romântica centrada num piloto (David Niven) que, depois de morrer, negociava com um tribunal celestial a possibilidade de regressar ao mundo dos vivos — um objecto surreal que, num belíssimo paradoxo, nos diz mais sobre as vivências da guerra que o naturalismo simplista de A Hora Mais Negra.
Joe Wright, convenhamos, é o protótipo (muito na moda) do cineasta que entende a linguagem cinematográfica como um catálogo de tiques técnicos: um plano na vertical, de cima para baixo, ou movimentos de multidão registados em câmara lenta... e por aí se fica o seu conceito de “reconstituição” histórica.
De tal modo que o filme se vai perdendo no esquematismo da sua “mensagem”. Veja-se a cena em que Churchill entra no metropolitano, descobrindo a população com que, afinal, não convive, acabando por montar uma espécie de mini-comício de mobilização para a guerra... É bem possível que Joe Wright possa apresentar alguma caução factual como base da cena. Mas o problema é outro: o tratamento demagógico da situação anula qualquer possível verosimilhança histórica, correndo mesmo o risco de nos virar contra o herói. Há outra maneira de dizer isto: A Hora Mais Negra é um filme incapaz de se pensar politicamente.

Memórias dos Talking Heads

Stop Making Sense já está disponível em DVD: um clássico absoluto do "filme-concerto" — este texto foi publicado no Diário de Notícias (7 Janeiro), com o título 'Um palco para música e cinema'.

Há dias, num “zapping” por alguns canais de televisão, deparei com um noticiário da MTV. Nenhuma surpresa, é um facto, mas não deixa de ser chocante a banalidade a que chegou a “televisão da música”. Para além de ter integrado os horrores da “reality TV”, incluindo alguns programas sinistros sobre o “arranjo” de casais, a MTV já nem trata com um mínimo de cuidado as mais simples notícias sobre as actividades musicais. Os apresentadores riem-se muito e tudo passa muito depressa no ecrã, contrariando a simples possibilidade de olhar o que quer que seja. Nem sequer persiste o gosto de valorizar a própria música — é a aceleração pela aceleração, tudo em nome da alegria da “juventude” que, supostamente, se quer celebrar.
Jonathan Demme
Eis um revelador contraste. Ao mesmo tempo que esta mediocridade comunicacional (?) triunfa no reino da televisão “juvenil”, o mercado do DVD dá-nos a possibilidade de redescoberta de um dos grandes clássicos do “filme-concerto”: Stop Making Sense (1984), com os Talking Heads, numa realização de Jonathan Demme.
É bem provável que, ainda em nome da “juventude”, haja quem tenha gosto em reduzir os Talking Heads e o seu líder, David Byrne, a uma curiosidade dispensável, a abolorecer nas caves esquecidas de um qualquer museu. Há de tudo neste mundo... Acontece que Stop Making Sense, fabricado a partir de três concertos dos Talking Heads no Hollywood Pantages Theatre, em Dezembro de 1983, exemplifica uma lógica muito especial de relação entre a concepção cénica do trabalho de uma banda e as componentes específicas de um olhar cinematográfico.
Numa linguagem que o palco do evento justifica, podemos até dizer que Demme e os Talking Heads delinearam um modelo de colaboração teatral: a performance da banda e o registo das câmaras evoluem, canção a canção, numa cumplicidade que, além do mais, explora de forma brilhante as possibilidades de montagem, do grande plano de pormenor à visão geral do palco.
Falecido em 2017, contava 73 anos, Demme não foi apenas o realizador de títulos tão marcantes como Selvagem e Perigosa (1986), O Silêncio dos Inocentes (1991) ou Filadélfia (1993). A sua relação com a música esteve na base de importantes abordagens documentais — por exemplo: Neil Young: Heart of Gold (2006) — e até, por vezes, no domínio da ficção, de experiências fascinantes como esse retrato de uma veterana cantora rock, interpretada por Meryl Streep no maravilhoso Ricki e os Flash (2015) [video]. O filme nem sequer foi muito noticiado, mas a MTV não tem culpa de tudo.

sábado, janeiro 13, 2018

A caminho dos OSCARS
— "A Forma da Água"
domina Critics' Choice Awards


Atribuídos pela Broadcast Film Critics Association e a Broadcast Television Journalists Association (englobando cerca de 250 críticos de rádio, televisão e Internet), os Critics' Choice Awards tiveram, este ano, a sua 23ª edição. Na cerimónia realizada a 11 de Janeiro, A Forma de Água foi o principal vencedor, com quatro distinções, incluindo melhor filme e melhor realizador. Eis alguns dos principais premiados — lista integral no site dos CCA.

* Filme — A FORMA DA ÁGUA, de Guillermo del Toro
* Realizador — Guillermo del Toro, por A FORMA DA ÁGUA
* Actor — Gary Oldman, A HORA MAIS NEGRA
* Actriz — Frances McDormand, TRÊS CARTAZES À BEIRA DA ESTRADA
* Actor secundário — Sam Rockwell, TRÊS CARTAZES À BEIRA DA ESTRADA
* Actriz secundária — Allison Janney, I, TONYA [trailer]
* Filme de animação — COCO, de Lee Unkrich e Adrian Molina


10 FILMES DE 2017 [8]
— Woody Allen


[ Kathryn Bigelow ]  [ Martin Scorsese ]  [ Pablo Larraín ]  [ Andrei Konchalovsky ]  [ Stéphane Brizé ]
[ Terrence Malick ]  [ André Téchiné ]

Escrever crítica de cinema nada tem a ver com dons de profecia... A afirmação é banal, mas adquire uma inquietante relevância neste contexto moralmente agitado de 2017/2018. Porquê? Porque, apesar de tudo, nos deixa uma interrogação perturbante: quantos anos, porventura décadas, serão necessários para que Roda Gigante, de Woody Allen, seja olhado, pelo menos, como um dos trabalhos mais ambiciosos, e também mais complexos, de toda a sua filmografia? Ou ainda, de modo mais rudimentar: quanto tempo passará até que o trabalho de imagem de Vittorio Storaro seja reconhecido como uma das proezas absolutas na direcção fotográfica nas primeiras décadas do século XXI? Futuros à parte, lembremos que Woody Allen arrisca aqui, mais do que nunca, na sua relação com a herança (teatral e cinematográfica) de Tennessee Williams. A saga do casal interpretado por Kate Winslet e Jim Belushi, no cenário festivo de Coney Island na década de 1950, evolui assombrada por esse erotismo difuso que as palavras transportam como armas letais ao serviço da verdade humana. Estamos, afinal, perante um conto moral sobre os dolorosos sobressaltos de qualquer romantismo — quanto à performance de Winslet, quase ninguém fala dela, mas haverá dezenas de actrizes que já ganharam Oscars por infinitamente menos.

Sorkin & Chastain (1/2)

Jessica Chastain
Aaron Sorkin escreveu e realizou, Jessica Chastain interpreta: Jogo da Alta Roda é, entre nós, uma das primeiras grandes estreias de 2018 — este texto foi publicado no Diário de Notícias (4 Janeiro), com o título 'O jogo de poker, o dinheiro, a fama e a solidão de tudo isso'.

O ano cinematográfico começa com a revelação de um brilhante cineasta: Aaron Sorkin. A sua primeira realização, Jogo da Alta Roda, aborda uma personagem verídica: Molly Bloom, organizadora de jogos de poker em Los Angeles e Nova Iorque que, em 2013, na sequência de uma investigação do FBI, foi acusada de cumplicidade em esquemas de lavagem de dinheiro: ilibada da maior parte das acusações, seria condenada a um ano de pena suspensa, ao pagamento de uma multa de mil dólares e ao cumprimento de 200 horas de trabalho comunitário.
Em boa verdade, o nome de Sorkin não é uma surpresa. Afinal de contas, ele impôs-se como um dos mais brilhantes argumentistas de Hollywood, tendo obtido o Oscar de melhor argumento adaptado com A Rede Social (2010), a história do nascimento do Facebook realizada por David Fincher. Antes disso, escreveu, por exemplo, a peça A Few Good Men, por ele próprio adaptada para um filme de 1992, dirigido por Rob Reiner, com Tom Cruise e Jack Nicholson (entre nós chamado Uma Questão de Honra); foi também criador e principal argumentista da série televisiva Os Homens do Presidente (1999-2006), tendo assinado, mais recentemente, os argumentos de Moneyball – Jogo de Risco (Bennett Miller, 2011) e Steve Jobs (Danny Boyle, 2015).
Aaron Sorkin
Estamos perante um criador moderno, mas de perfil clássico. Quando recebeu o seu Oscar, Sorkin fez mesmo questão de evocar a herança de Paddy Chayefsky (1923-1981), referência lendária da arte do argumento num tempo em que as interacções cinema/televisão se tornavam cada vez mais importantes — foi ele que escreveu Network – Escândalo na TV (Sidney Lumet, 1976), filme premonitório dos horrores do populismo televisivo.
A complexidade humana das personagens constitui a matéria primordial de Sorkin, de tal modo que não parece possível imaginar Jogo de Alta Roda sem a prodigiosa composição de Molly Bloom por Jessica Chastain. Vogamos para além da questão da “inocência” ou “culpa” da figura central, mesmo se tal questão funciona como motor da dimensão “policial” do argumento. Para Sorkin, trata-se de colocar em cena o misto de vulnerabilidade e força de uma personagem que falhou o seu sonho de ser esquiadora (sendo, por isso, essencial o valor simbólico da cena de abertura), de alguma maneira “compensando” através dos jogos de poker essa falha fundadora da sua identidade — o título original do filme é Molly’s Game, retomando o do livro que a própria Molly Bloom escreveu.
Ironia sugestiva, sem dúvida: Molly Bloom tem o mesmo nome da personagem feminina de Ulisses, de James Joyce, tecendo uma infindável teia de reconciliação com a realidade. Daí a comoção que Sorkin e Chastain colocam em cena: por um lado, Molly acede a um universo de gente famosa interessada nos seus jogos, incluindo Tobey Maguire, Leonardo DiCaprio e Ben Affleck (nenhum deles identificado no filme, embora a personagem interpretada por Michael Cera remeta, talvez, para a figura de Maguire); por outro lado, a sua vulnerabilidade passa pela possibilidade de refazer o seu primitivo laço com o pai (Kevin Costner, numa breve mas delicada composição, por certo das mais subtis de toda a sua carreira). Este é, afinal, um filme sobre o sucesso e a circulação do dinheiro, mas também sobre o preço incalculável da solidão.

10 DISCOS DE 2017 [8]
— Ambrose Akinmusire

[ Arca ]  [ Tricky ]  [ Lorde ]  [ The Rolling Stones ]  [ Thelonious Monk ]  [ St. Vincent ]  [ Robert Plant ]

Herdeiro de Miles Davis?... Mas qual é o trompetista de jazz que não é herdeiro de Miles Davis? Apetece dizer que, se não é, talvez não seja trompetista de jazz... Nascido em 1982, o californiano Ambrose Akinmusire conhece as suas raízes, sem que isso o impeça de experimentar as derivações mais "vanguardistas" — escutámo-lo, por exemplo, numa faixa do álbum To Pimp a Butterfly (2015), de Kendrick Lamar. Na sua trajectória pessoal, o álbum The Imagined Savior Is Far Easier to Paint (2014) tinha ficado como um depurado monumento de serena introspecção. E não se pode dizer que este registo ao vivo num lugar mítico de Nova Iorque — A Rift in Decorum: Live at the Village Vanguard — seja o desmentido de tal postura. Será mesmo uma intensificação dos seus dispositivos, agora com um acompanhamento ainda mais "abreviado": Akinmusire dispensou, desta vez, a presença de Walter Smith III (saxofone), conservando Sam Harris (piano), Harish Raghavan (contrabaixo) e Justin Brown (bateria) para uma elaborada deambulação tecida de dores e alegrias primordias, exemplarmente condensada nessa faixa de uma dezena de minutos que ostenta o belo título Moment in Between the Rest (To Curve an Ache) — para ouvir aqui.