domingo, novembro 19, 2017

FNAC: Star Wars & etc. [balanço]

A estreia próxima de um novo título da saga Star Wars serviu de pretexto para mais uma edição do nosso Magazine, na FNAC do Chiado. Em jeito de muito breve balanço, aqui ficam imagens de três dos títulos evocados, ilustrando marcas específicas de épocas bem diferentes. São eles:
Metropolis (1927), de Fritz Lang;
O Dia em que a Terra Parou (1951), de Robert Wise;
Debaixo da Pele (2013), de Jonathan Glazer.
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* O próximo SOUND + VISION MAGAZINE terá como tema:
Twin Peaks & David Lynch
(FNAC, 16 Dez., 18h30)
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Charlotte Gainsbourg, opus 5

O apelido pesa na démarche de Charlotte? Claro que sim. Mas não de acordo com a noção, afinal simplista, de que "filho(a) de peixe sabe nadar". A filha de Serge Gainsbourg e Jane Birkin soube construir um edifício musical, por certo não estranho ao misto de versatilidade e auto-ironia da respectiva herança, mas preservando sempre a singularidade de uma voz (no sentido vocal, mas também simbólico) que não abdica da ligeireza contraditória da pop.
Já conhecíamos a canção-título de Rest, quinto álbum de Charlotte Gainsbourg. O seu teledisco era, aliás, um sedutor jogo de espelhos, oscilando entre a contemplação e a irrisão que a dimensão humana pode conter. Algo de semelhante se poderá dizer a propósito desta encenação de Ring-a-ring o' roses, canção em ziguezague entre francês e inglês, evocando a verdade perdida de um amor original, em contraponto com o ritmo peculiar de uma canção infantil [nursery rhyme] — tão perto do medo da morte, tão simples como o instante de uma carícia.

Premier appel
Originel
Premier baiser
Purement maternelle
Première foulée
Effort enragé
Première ivresse
Rêve de déesse

Ring-a-ring o' roses
Pocketful of posies
We all fall down
Round and round in circle
Waiting for a miracle
Kiss the crowd
Ring-a-ring o' roses
Pocketful of posies
We all fall down
Round and round in circle
Waiting for a miracle
Kiss the crowd

Premier amour
Je jure solennel
Premiers ébats
Va au septième ciel
Premier chagrin,
Premier coup de poing
Première affaire
Premier salaire

Ring-a-ring o' roses
[...]

Premier enfant
Monstre bruyant
Premier cheveu blanc
Crâne le temps
Premier pépin
Début de la fin
Dernier soupir
Qu'il soit de plaisir

Ring-a-ring o' roses
[...]

sábado, novembro 18, 2017

A IMAGEM: Philip Jones Griffiths, 1961

PHILIP JONES GRIFFITHS
Inglaterra, 1961

Star Wars & etc.
— SOUND + VISION Magazine, FNAC [hoje]

O novo Star Wars: Os Últimos Jedi chega a 14 de Dezembro. É um bom pretexto para, antes da estreia, reorganizarmos as memórias, não apenas da saga criada por George Lucas, mas também da grande tradição cinematográfica (e não só) da ficção científica — será o tema do próximo SOUND + VISION Magazine, na FNAC.

* FNAC: Chiado, hoje, 18 Novembro (18h30)

"Liga da Justiça": mais do mesmo... (1/2)

Na guerra dos super-heróis, Liga da Justiça é o novo episódio: os milhões de dólares acumulam-se e as ideias escasseiam — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 Novembro), com o título 'Batman, Super-Homem & Cª. voltam a salvar o planeta Terra'.

O planeta dos super-heróis vive angustiado desde que, em 2016, em Batman v. Super-Homem: O Despertar da Justiça, assistimos à morte de Super-Homem... Ou talvez não... Em qualquer caso, o esclarecimento de tal dúvida seria um dos pontos enigmáticos de Liga da Justiça, filme de Zack Snyder ruidosamente promovido como uma celebração dos principais heróis da DC Comics, incluindo Batman e Wonder Woman. Seria, de facto... Acontece que, desde a divulgação do elenco até ao trailer do filme, passando pelas fotos promocionais, sabíamos do regresso de Henry Cavill como intérprete do lendário sobrevivente do planeta Krypton.
Qual é, então, a surpresa? Pouca ou nenhuma, infelizmente. Este modelo de filmes entrou numa lógica de sequelas repetidas e repetitivas, muito distantes da energia criativa do começo da sua “idade moderna”, iniciada com Batman (1989) e Batman Regressa (1992), ambos de Tim Burton.
Estamos, afinal, perante os efeitos mais grosseiros do conceito corrente de “franchise”, alicerçado em orçamentos ditirâmbicos (Liga da Justiça custou 300 milhões de dólares) cujos dramas de rentabilização ameaçam toda a estrutura de Hollywood. Com um detalhe que importa sublinhar: quem começou por chamar a atenção para o risco de “implosão” da indústria não foi nenhum crítico, antes dois cineastas não propriamente desconhecidos — Steven Spielberg e George Lucas —, num debate realizado no dia 12 de Junho de 2013 na Escola de Artes Cinematográficas da Universidade da Califórnia do Sul.
O mais desconcertante é a perda do gosto mais clássico de contar histórias. Liga da Justiça deixa-se resumir pela mais escassa sinopse. A saber: um exército de terríveis alienígenas, comandado pelo implacável Steppenwolf (Ciáran Hinds), prepara-se para conduzir o planeta Terra ao apocalipse... Enfim, não será preciso especular muito para adivinhar o que farão os heróis. O certo é que tudo isso se resolve com a previsível destruição de um sem número de cenários digitais, aqui e ali “sustentado” por embaraçosos diálogos, capazes de transformar as situações mais trágicas em momentos involuntariamente anedóticos. Isto sem esquecer o subaproveitamento de intérpretes de invulgar talento, com destaque para Amy Adams, claramente à deriva no papel de Lois Lane, eterna “noiva” de Clark Kent.

[continua]

"Encontros Imediatos" — 40 anos (1/4)

No dia 15 de Novembro, assinalaram-se 40 anos sobre a data da primeira exibição pública, nos EUA, de Encontros Imediatos do Terceiro Grau — este texto, integrando um dossier do Diário de Notícias publicado nessa data, foi publicado com o título 'Quando os extra-terrestres vieram visitar Spielberg'.

Quando percorremos a história de Hollywood, há datas que sinalizam e condensam algumas transformações radicais. Por exemplo, 1927, com O Cantor de Jazz, primeiro fenómeno do cinema sonoro; 1939, com E Tudo o Vento Levou, síntese admirável da epopeia literária e do Technicolor; 1969, com Easy Rider, símbolo da “contra-cultura” dos anos 60 e também dos valores da produção independente. Chegamos a 1977 e tudo parece apontar para o fenómeno Star Wars (que, na altura, entre nós, ainda tinha direito à tradução A Guerra das Estrelas): foi a 25 de Maio que se estreou o primeiro título da saga de George Lucas. Mas importa reorganizar os nossos arquivos cinéfilos e recordar também que no dia 15 de Novembro — faz hoje 40 anos — Nova Iorque assistia à primeira exibição pública de Encontros Imediatos do Terceiro Grau, de Steven Spielberg.
Nunca foi segredo o facto de a história dos extra-terrestres que visitam o planeta Terra ter as suas raízes em memórias remotas de Spielberg. No documentário The Making of Close Encounters of the Third Kind, produzido em 1997, o cineasta cita mesmo como primordial inspiração o facto de, ainda criança, ter assistido com o pai, em New Jersey, a um desses fenómenos naturais normalmente identificado como “chuva de meteoros”. No filme, a contemplação da imensidão do céu envolve mesmo um misto de solidão e expectativa: daquele universo sem fim algo vai aparecer... Ou como dizia a frase promocional do emblemático cartaz de lançamento do filme: “We are not alone” [“Não estamos sós”].


Com o passar dos anos, foi-se tornando cada vez mais evidente que este é mesmo um dos filmes mais pessoais de Spielberg. Nele encontramos a depurada expressão de um tema visceral do seu universo: a disponibilidade infantil para contemplar o mundo, mesmo nos seus contrastes mais assustadores, como uma promessa de encantamento. A célebre imagem do pequeno Barry (Cary Guffey), admirando as luzes “ameaçadoras” que se manifestam à porta de sua casa, resume a ambiguidade da fábula: os extra-terrestres constituem a mais estranha das visitas, mas é o próprio Barry que, alheado do medo dos adultos, os convoca.
Daí que seja discutível a inscrição automática de Encontros Imediatos do Terceiro Grau na vaga de ficção científica que, para o melhor e para o pior, tinha começado a contaminar os instrumentos técnicos e as opções artísticas do cinema americano. Aliás, em 1982, com E.T., o Extra-Terrestre, Spielberg encenaria uma história também de um “encontro imediato”, tratando o inesquecível E.T. como um irónico duplo das personagens infantis.

Cenários naturais

O filme constituiu um invulgar desafio de produção, contando com um sólido orçamento de 20 milhões de dólares, valor, para a época, francamente acima da média. Mais do que isso: o estúdio produtor, Columbia, deu total liberdade criativa a Spielberg, já que, em 1975, ele tinha passado para a linha da frente da indústria graças ao fenomenal sucesso de Tubarão, rodado com apenas 9 milhões (para A Guerra das Estrelas, Lucas teve 11 milhões). Douglas Trumbull, que trabalhara com Stanley Kubrick em 2001: Odisseia no Espaço (1968), foi o responsável pelos efeitos especiais do filme, tendo à sua disposição 3,3 milhões do orçamento global — rezam as crónicas da época que ele considerava que, só com esse dinheiro, teria sido possível fazer uma segunda longa-metragem.
Seja como for, para o impacto visual do filme, os cenários naturais revelar-se-iam decisivos. Lembrando as dramáticas dificuldades encontradas durante as cenas do oceano em Tubarão, Spielberg começou por resistir a tal hipótese, mostrando-se empenhado em trabalhar o mais possível em estúdio. O certo é que acabou por compreender que um certo realismo dos lugares era essencial ao impacto da acção, tendo filmado em particular na zona da “Torre do Diabo”, no estado do Wyoming, a formação rochosa que vai obcecando o pai do pequeno Barry (Richard Dreyfuss), funcionando como elo espiritual com os extra-terrestres.


Encontros Imediatos do Terceiro Grau foi um dos grandes sucessos de 1977 nas salas dos EUA, surgindo no terceiro lugar do top de receitas, depois de A Guerra das Estrelas e Os Bons e os Maus, uma comédia com Burt Reynolds. Curiosamente, o filme acabou por ter uma vida comercial dupla. Ou tripla. Isto porque, um ano mais tarde, dificuldades financeiras levaram a Columbia a pedir a Spielberg que fizesse uma nova versão — com um final em que é revelado o interior da nave dos extra-terrestres —, de modo a que o filme pudesse ser relançado, garantindo um índice de receitas fundamental para o estúdio. Spielberg assim fez, vindo a declarar-se profundamente arrependido — a sua versão pessoal e definitiva, identificada como “Collector’s Edition”, só seria comercializada em 1998.

sexta-feira, novembro 17, 2017

Aretha Franklin em versão "digest"

Um grande e amargo embaraço... Porquê, e para quê, refazer algumas gravações clássicas de Aretha Franklin, acrescentando-lhe as competências de uma grande orquestra?
Escusado será dizer que não são as qualidades da Royal Philarmonic Orchestra que estão em causa, muito menos a perenidade dos registos da Rainha do Soul. Escutando A Brand New Me, resta saber o que é que a intrusão da orquestra traz à singularidade de tais registos... Nada — a não ser a embaraçosa vulgaridade de um conceito "digest" da cultura popular em que, como se prova, a energia dos originais se tornou o mais fraco dos valores.
A seguir:
— o video promocional deste infeliz projecto;
— sons do single que inclui Let it Be e Son of a Preacher Man (1970), ou seja, the real thing.



A guerra dos sexos [citação]

[FOTO: Sophie Zhang]
>>> Parece-vos paradoxal, utópico, num mundo globalizado, uniformizado, banalizado, robotizado, evocar a eventualidade de uma actividade criadora dos sujeitos sexuados que somos? Ela existe, e desenvolve-se mesmo, como contra-peso à banalidade que é o mal moderno. E é nessas margens de pequenas inovações, que nos impedem de morrer de banalidade, que procuramos realizar os nossos elementos de genialidade, talvez émulos patéticos dos génios consagrados através dos séculos. O mais pequeno esforço de originalidade, a mais pequena proeza de novidade, não nos exigem que nos reinventemos? Assim, para além da própria bissexualidade psíquica, seja sujeito homem ou sujeito mulher, eu recrio-me até à minha identidade sexual numa plasticidade aberta a inusitadas metamorfoses: com Rimbaud, eu é um outro — homem, mulher, criança, planta, animal, estrela. E, com Colette, transformo-me na carne do mundo.

JULIA KRISTEVA
2016

quinta-feira, novembro 16, 2017

Björk: mais uma canção utópica

Está quase a chegar o álbum Utopia, de Björk. Depois de The Gate, aí está uma nova canção: Blissing Me surge num misto de fluidez e fragmentação, filmada num extraordinário plano-sequência por Tim Walker & Emma Dalzell.

all of my mouth was kissing him
now into the air i am missing him
is this excess texting a blessing
or just two music nerds obsessing

he reminds me of the love in me
i’m celebrating on a vibrancy
sending each other mp3s
falling in love to a song

this handsommest of wickermen
he asked if i could wait for him
now how many lightyears this interim
while falling in love with his songs

his hands are good in protecting me
touching and caressing me
but would it be trespassing
wanting him to be blissing me
robbing him of his youth

cliffhanger like suspension
my longing has formed its own skeleton
bridging the gap between singletons
sending each other these songs

the interior of these melodies
is perhaps where we are meant to be
our physical union a fantasy
i just fell in love with

so i reserve my intimacies
i bundle them up in packages
my rawward longing far too visceral
did i just fall in love with love?


A IMAGEM: Craig McDean, 2008

CRAIG McDEAN
Nicole Kidman
2008

Kelela — passado e presente

R&B alternativo? Sugestivo, sem dúvida. Mas é um rótulo como qualquer outro... O certo é que na actual paisagem de muitas formas gratuitas de miscigenação, não poucas vezes protegidas pela designação cada vez menos operante de "world music", Kelela (nascida em Washington, em 1983) é um pequeno grande fenómeno de singularidades. As suas canções possuem a verdade intrínseca de uma voz firmemente ancorada no presente, sem procurar imitar ninguém, ao mesmo tempo mantendo uma ágil ligação com o passado, os passados. Vale a pena escutar o seu primeiro álbum, Take Me Apart — este é o teledisco de Blue Light.

quarta-feira, novembro 15, 2017

Armani por Sarah Moon

Sarah Moon, a veterana fotógrafa francesa, criadora de imagens de contornos difusos e poses contemplativas, tudo tecido através de uma infinita melancolia, realizou um portfolio para uma nova colecção da casa Armani — podiam ser fotogramas de um filme de Minnelli.

"The Walking Dead": homens e zombies

Andrew Lincoln
Com a oitava temporada, The Walking Dead chega a um novo patamar narrativo e simbólico — este texto foi publicado no Diário de Notícias (12 Novembro), com o título 'O perdão no mundo dos zombies'.

Na evolução da série televisiva The Walking Dead (Fox), temos assistido a um desconcertante apagamento das figuras dos zombies. Claro que não desapareceram os “mortos andantes” (a tradução literal envolve um sugestivo resumo dos fantasmas deste imaginário), ilustrando, aliás, uma das vias mais surpreendentes do desenvolvimento dos efeitos especiais, quer em cinema, quer em televisão. O certo é que o confronto dos humanos com os zombies passou a ser uma espécie de pano de fundo infernal, emprestando novas intensidades a uma rede de conflitos visceralmente humanos — as imagens de promoção de The Walking Dead passaram mesmo a dispensar a amostragem dos zombies.
Os primeiros episódios da actual oitava temporada (a série arrancou em 2010) narram uma teia de “guerras civis” que envolvem o colectivo inicial, liderado por Rick Grimes (Andrew Lincoln), a assustadora tribo de Negan (Jeffrey Dean Morgan) e mais alguns grupos gerados no processo de resistência aos zombies. O efeito dramático de tal fragmentação já era sensível nas duas temporadas anteriores, mas agora impôs-se como regra de construção. Em boa verdade, The Walking Dead já não é uma epopeia de resistência aos seres que perderam a sua humanidade, mas sim uma tragédia de humanos contra humanos.
Em especial desde a introdução da personagem de Negan, a questão da sobrevivência tem vindo a colocar-se na sua forma mais drástica, precisamente aquela cuja possibilidade Rick nunca colocou de parte. A saber: para sobreviver no meio de tão dantesco cenário, haverá sempre situações em que os protagonistas terão de matar alguns dos seus semelhantes. É verdade que isso não mudou no dispositivo dramático da nova temporada, mas não é menos verdade que a contundência da sua formulação tem vindo a coexistir com a formulação de uma hipótese de perdão. Há mesmo personagens que resistem a matar os inimigos capturados, sendo Paul Rovia (Tom Payne) o líder de tal atitude — nas relações no interior do seu grupo, Rovia é tratado por “Jesus”.
Vale a pena registar estas nuances, quanto mais não seja porque a maior parte dos valores da cultura popular tendem a ser mediaticamente reduzidos a um pitoresco sem consequências (com excepção do futebol, cujos protagonistas são sistematicamente apresentados como modelos universais). Em tempos de muitas narrativas niilistas, os zombies de The Walking Dead coexistem com uma insólita mensagem de tolerância e compaixão: dir-se-ia que há neles uma (ainda mais) inquietante réstia de humanidade.

terça-feira, novembro 14, 2017

Fernão Mendes Pinto, aqui e agora

João Botelho revisita a herança de Fernão Mendes Pinto em nome de uma ideia feliz de cinema — este texto foi publicado no Diário de Notícias (5 Novembro), com o título 'Uma peregrinação cinéfila'.

De que falamos quando falamos das abordagens da história de Portugal nas imagens que consumimos? Ou, de um modo geral, no audiovisual? Dois clichés televisivos dominam as respostas. O primeiro é o mais fácil e também o mais frequentemente aplicado: sentam-se três ou quatro especialistas em semi-círculo e difunde-se através das câmaras. O segundo, para além da especialização, envolve uma afirmação de autoridade discursiva: um especialista, de novo, fala para a câmara (neste caso, basta uma), colocando-se em frente de testemunhos do passado, de preferência monumentos — quanto mais antigos, mais parecem legitimar o seu discurso.
Evitemos as generalizações. Para além das retóricas triunfantes, há acontecimentos televisivos de grande valor informativo e pedagógico que aplicam as regras dos dispositivos atrás descritos. Resta saber o que pode existir — ou ser criado — sem ceder à preguiça das rotinas instaladas.
O novo filme de João Botelho, Peregrinação, surge como um belo exemplo de criatividade e invenção, desafiando os efeitos normativos de muitas imagens geradas sem reflexão sobre o que significa... trabalhar com imagens. Ao propor a reconstituição das viagens de Fernão Mendes Pinto, no século XVI, Botelho começa por questionar os equívocos que essa mesma noção, “reconstituição”, tantas vezes arrasta.
Reconstituir o quê? Os barcos? Sem dúvida. As roupas? É possível. O modo de falar? Interessante, certamente difícil... O que está em jogo é a possibilidade de superar a visão pueril que, não poucas vezes, reduz os chamados filmes históricos a catálogos de adereços mais ou menos luxuosos, sem o mais rudimentar pensamento sobre o que significa percorrer a distância (temporal, cognitiva, simbólica) que nos separa dos acontecimentos evocados.
Botelho aplica um instrumento, inesperado e fascinante, para lidar com essa distância: a música ou, mais precisamente, as canções de Fausto, do álbum Por Este Rio Acima (1982), agora retrabalhadas por Luís Bragança Gil e Daniel Bernardes. Que acontece, então? Descobrimos que o concreto das experiências de Fernão Mendes Pinto não rejeita, antes parece atrair, os artifícios que as matérias musicais transportam e instalam. A histórica como colagem de referências “realistas”? Digamos que sim. A música como derrapagem “irrealista”? Sim — porque não? O certo é que, em Peregrinação, os respectivos contrastes coexistem de modo feliz e contagiante: não é uma história de especialistas, mas uma saga, bizarra e contraditória, de portugueses.