segunda-feira, junho 26, 2017

"Purple Rain", 2017

Quando Prince faleceu (a 21 de Abril de 2016), a reedição de Purple Rain (1984) era um dos muitos projectos em que estava envolvido — Purple Rain [Deluxe Expanded Edition] aí está como assombroso resultado de tal processo: uma antologia CDs + DVD que, para além da remasterização do álbum original, oferece materiais alternativos e canções inéditas (pelo menos em registos oficiais), naquela que é a primeira grande revelação de um "cofre" que, tudo indica, continuará a alimentar muitas edições mais ou menos surpreendentes.
Dito de outro modo: aquilo que foi, na origem, a colecção de canções de um filme, dirigido por Albert Magnoli, em 1984 (com 25 milhões de cópias, continua a ser a sexta banda sonora mais vendida de sempre), renasce agora como um esplendoroso monumento musical — por certo, uma das reedições do ano.
Aqui fica um dos inéditos, The Dance Electric, e um video oficial da NFL, dedicado à espantosa performance de Prince na 41ª edição do Super Bowl, a 4 de Fevereiro de 2007, concluída, justamente, com Purple Rain.



domingo, junho 25, 2017

FEST / Espinho — imagens "neutras"?

Se olharmos com um mínimo de atenção para estas cinco imagens, descobriremos o que as aproxima:
1 - todas elas reflectem pontos de vista a partir do tablier de algum automóvel (ou veículo de quatro rodas);
2 - todas elas surgem localizadas no tempo, através da inserção de data e hora.
Poderíamos, por exemplo, perguntar: será possível construir um filme apenas a partir destas imagens? Pois bem, a resposta é afirmativa. É com elas que Dmitrii Kalashnikov, cineasta da Bielorrúsia, fabricou o seu admirável The Road Movie, apresentado no FEST - Espinho — acabaria por receber o Lince de Ouro na categoria de longas-metragens documentais.
Aquilo que Kalashnikov consuma é, no essencial, uma invulgar proeza de montagem. As imagens são anódinas, por vezes humorísticas, muitas vezes perturbantes (há vários registos de violentíssimos acidentes) — são imagens de pequenas câmaras que milhões de cidadãos russos passaram a usar, de modo a terem recursos para utilizar em eventuais situações de tribunal por causa de acidentes durante a condução. O certo é que a sua sucessão vai gerando um retrato cru e desencantado de um quotidiano em que as trocas humanas parecem dominadas por uma sistemática desvalorização do outro.
A sociologia tende a criar padrões que, com maior ou menos justeza, nos permitem perceber um pouco dos modos colectivos de viver. Aqui, dir-se-ia antes de qualquer discurso sociológico, deparamos com o carácter irredutível do indivíduo, num universo em que tudo pode ser conflitual — em resumo, um exemplo notável de um exercício cognitivo radicalmente cinematográfico, discutindo, ponto por ponto, a "neutralidade" técnica das imagens e, desse modo, a coerência imaginária da vida pública.

sábado, junho 24, 2017

Rebel Heart Tour — DVD a 15 de Setembro

O DVD da Rebel Heart Tour já tem data de lançamento. Assim, a 15 de Setembro, o registo da digressão de Madonna estará nas lojas, surgindo também em Blu-ray e download digital; ao mesmo tempo, será editado um álbum com 22 canções dos concertos. Co-dirigido por Danny Tull e Nathan Rissman, Madonna: Rebel Heart Tour inclui material de palco e bastidores, no essencial recolhido nos concertos em Sydney, Austrália, em Março de 2016.

>>> Imagens de fundo da canção Rebel Heart, durante a digressão.

"O Exorcista" — do cinema para a televisão

O Exorcista está de volta, agora como série televisiva — este texto foi publicado no Diário de Notícias (17 Junho), com o título 'Mais de quatro décadas depois, O Exorcista renasce na televisão'.

Para o melhor e para o pior, cinema e televisão têm-se dedicado nas últimas décadas a copiar os seus próprios sucessos. Sequelas, remakes, continuações mais ou menos (in)fiéis aos originais passaram a fazer parte da rotina audiovisual. Ainda assim, uma versão televisiva do filme O Exorcista (1973), de William Friedkin, não estaria nas previsões de muita gente. Mas ela aí está: O Exorcista, série criada pelo argumentista Jeremy Slater, estreou-se nos EUA em Setembro de 2016, chegando agora ao público português — no canal Fox [desde segunda-feira, dia 19, 22h15].
A nova série, curiosamente, não se apresenta como uma recriação do filme de Friedkin, mas sim do romance de William Peter Blatty (1928-2017) que esteve na sua origem — a versão cinematográfica era, aliás, escrita pelo próprio Blatty, tendo-lhe valido um Oscar de melhor argumento adaptado. Em qualquer caso, encontramos também uma dupla de sacerdotes que, de uma maneira ou de outra, vão ser compelidos a enfrentar as manifestações do Mal, lidando com personagens jovens “mobilizadas” para os mais diabólicos desígnios. Um dos sacerdotes, o padre Marcus Keane (Ben Daniels) é um veterano dos exorcismos, tendo tentado resgatar um rapaz de uma família de um bairro pobre no México; o outro, Tomas Ortega (Alfonso Herrera), de ascendência mexicana, mais novo e menos experiente, começa a ter sonhos em que vislumbra as práticas exorcistas do próprio Marcus.
Tomas decide procurar Marcus e dar-lhe conta das suas inquietações. A acção dos dois sacerdotes irá cruzar-se através de uma família de Chicago, precisamente da paróquia de Tomas. No primeiro episódio, a mãe dessa família — interpretada pelo nome mais sonante do elenco: Geena Davis (Oscar de melhor actriz secundária em O Turista Acidental, 1988) — vai revelar-se como peça fundamental desta intriga de medos e fantasmas. Vivendo com o marido (Alan Ruck) e duas filhas (Brianne Howey e Hannah Kasulka), ela dá conta a Tomas dos barulhos que ouve através das paredes, garantindo-lhe que há “alguma coisa” no interior da sua casa. Mais do que isso: preocupada com o facto de a filha mais velha (Howey) passar a maior parte do tempo fechada no seu quarto, receia que ela possa estar a ser instrumentalizada por forças desconhecidas...

Demónios e metáforas

Para além das cenas de suspense e dos ziguezagues mais ou menos insólitos da história (e logo no primeiro, há um bem inesperado...), pode dizer-se que a série propõe o mesmo tipo de aproximação “sociológica” que já estava presente no filme. À distância de mais de 40 anos, reencontramos o confronto entre uma visão racional do quotidiano e os sinais que, através de uma crescente perturbação, vão sugerindo que há forças malignas que os seres humanos não controlam — quando Tomas tenta acalmar a mãe, lembrando-lhe que os “demónios são metáforas”, ela insiste que aquilo que está a acontecer em sua casa não tem nada de metafórico.
Estreado nos EUA na quadra natalícia de 1973 (chegaria a Portugal cerca de um ano mais tarde), o filme de Friedkin reflectia, indirectamente, as convulsões de uma sociedade assombrada pelos traumas da guerra do Vietname (que terminaria em meados de 1975). Cerca de um ano antes, surgira Os Visitantes, realizado pelo veterano Elia Kazan, precisamente um dos primeiros filmes a reflectir esses traumas.
O impacto de O Exorcista, de Friedkin, foi de tal ordem que, ainda hoje, na tabela ajustada à inflação dos filmes mais rentáveis de sempre no mercado americano surge em nono lugar. Para se ter uma ideia da dimensão de tal sucesso, lembremos que o recordista de bilheteira do ano passado, Rogue One: Uma História de Star Wars, ocupa o 57º lugar da mesma tabela.
O filme gerou uma franchise, prolongada por O Exorcista II: o Herege (1977), de John Boorman, e O Exorcista III (1990), com William Peter Blatty a assumir a realização para adaptar o seu livro Legião (sequela do primeiro). Os títulos seguintes — Exorcista: o Princípio (2004) e Dominion: a Prequela de o Exorcista (2005) — ficaram marcados por muitos problemas de produção e, em boa verdade, nem sequer foram assumidos pelos respectivos realizadores, Renny Harlin e Paul Schrader.
Dir-se-ia que a nova série televisiva surge como espelho perverso de uma América atravessada por uma crise de identidade que contamina a sua cena política, ao mesmo tempo que questiona alguns dos seus valores tradicionais. Se é metáfora ou não, eis o que está aberto à discussão — o certo é que, no passado mês de Maio, a Fox encomendou uma segunda temporada de O Exorcista.

sexta-feira, junho 23, 2017

FEST / Espinho — o cinema em diálogo

Decorre em Espinho — até dia 26 — mais uma edição do FEST, certame que se mantém fiel ao lema "Novos realizadores / Novos filmes". Assim, para além da passagem de obras de jovens realizadores das mais variadas origens, o festival aposta também na combinação dos registos tradicionais, da ficção ao documentário, passando pela experimentação.
Em qualquer caso, o rótulo de "juventude" não esgota as propostas desta 13ª edição, já que a programação integra vários espaços de debate, com personalidades do mundo da indústria — incluindo, este ano, por exemplo, a actriz Melissa Leo, o designer Allan Starski (A Lista de Schindler, O Pianista, etc.) ou o compositor Gary Yershon (colaborador regular de Mike Leigh). As participações de tais personalidades integram o chamado 'Training Ground', conjunto de sessões em que os formadores falam sobre o seu trabalho e dialogam com a assistência.
A noção de diálogo será mesmo o valor fundamental, como foi possível confirmar nas sessões com Nuno Lopes e Edward Lachman. O actor português falou da sua experiência multifacetada — teatro, televisão, cinema —, evocando muitos episódios pessoais reveladores da complexidade do trabalho de representação, ao mesmo tempo propondo uma visão pedagógica desse trabalho, capaz de preservar (e enaltecer) as suas muitas vias possíveis. Quanto a Lachman, colaborador frequente de Todd Haynes (Longe do Paraíso, Carol, etc.), mas também de Wim Wenders ou Steven Soderbergh, conduziu a assistência através de uma viagem pela sua obra, particularmente sugestiva pela abordagem dos contrastes entre a utilização da película clássica e os novos recursos digitais — Lachman deixou, em especial, a ideia de que o digital, independentemente de ser "melhor" ou "pior" que a película, permanece um território que continua a suscitar muitas perguntas (técnicas, expressivas) ainda sem resposta.

>>> Os filmes que ainda há para ver em Espinho.

quinta-feira, junho 22, 2017

Radiohead — dia e noite

Está a chegar OKNOTOK, a edição comemorativa do 20º aniversário do álbum OK Computer, dos Radiohead. Das três canções que nunca tinham tido edição oficial, e são agora publicadas, já conhecíamos o teledisco de I Promise. Agora, é a vez de Man of War, encenado numa magnífica realização de Colin Read — um conto de assombramento em que o dia que se transforma em noite, ou a noite devora o dia.

Drift all you like from ocean to ocean
Search the whole world
But drunken confessions and hijacked affairs
Will just make you more alone

When you come home I’ll bake you a cake
Made of all their eyes
I wish you could see me dressed for the kill

You’re my man of war
You’re my man of war
Yeah, the worms will come for you, big boots

So unplug the phones, stop all the taps
It all comes flooding back
To poison clouds and poisoned dwarves

You’re my man of war
[...]

Os retratos sem som de Gérard Courant

Gérard Courant é um caso extremo, e extremamente original, de cinema experimental — este texto foi publicado no Diário de Notícias (20 Junho).

De que falamos quando falamos de cinema experimental? Algumas das respostas mais singulares, desconcertantes e sedutoras poderão estar na obra do francês Gérard Courant (nascido em Lyon, em 1951). Até sexta-feira, dia 23, vários exemplos da sua longuíssima filmografia podem ser vistos na Cinemateca, num ciclo que ele próprio acompanha.
Na informação sobre o ciclo, a Cinemateca apresenta uma eloquente estatística. Assim, desde 1970, utilizando os mais variados suportes, Courant assinou nada mais nada menos que “mil e dezanove filmes, dos quais trezentas e duas longas-metragens, num total de quase oitocentas horas de cinema” (ele próprio disponibilizou muitos dos seus trabalhos na Net, em dois canais do YouTube: “Gérard Courant” e “Billy Schneider”).
Se mais razões fossem necessárias, Courant seria um criador à parte pelo simples (?) facto de ser o autor de Cinématon, habitualmente citado como “o filme mais longo da história do cinema”, totalizando 198 horas — e, atenção, mantendo-se como um “work in progress”.
Que faz, então, Courant? Utilizando as clássicas bobines de Super 8, de 3 minutos e 20 segundos de duração, regista planos fixos, sem som, das personalidades mais diversas do mundo do cinema. Os resultados dão a ver atitudes bem diversas face ao olhar da câmara, numa colecção de “auto-retratos” que têm tanto de espelho como de máscara — Manoel de Oliveira, Jean-Luc Godard [video], Wim Wenders, Pedro Costa ou Isabel Ruth são algumas dos seus protagonistas, a ver nas sessões da Cinemateca.


Por vezes, o trabalho de Courant assume-se como uma homenagem a referências emblemáticas da memória cinéfila: é o caso de Les Aventures d’Eddie Turley, uma colecção de imagens fixas “recriando” Alphaville (1965), de Godard, ou ainda BB + Marilyn = Godard + Preminger, longa-metragem desenvolvida a partir de 2013, tendo como ponto de partida a iconografia de Brigitte Bardot.
Noutros filmes, podemos encontrar uma insólita etnografia (por exemplo, 24 Passions tem como base o registo de uma representação da Paixão de Cristo numa aldeia da região de Ardèche, ao longo de 24 anos) ou uma geografia à beira do surreal (À Travers l’Univers, sobre as ruas e praças de uma povoação de Isère). Através dos filmes de Courant, o mundo renasce como “coisa” transparente e misteriosa — dir-se-ia que a atitude documental nos pode colocar em contacto com os enigmas dos nossos modos de estar e viver.

* Ciclo Gérard Courant – O Homem-Câmara
Cinemateca Portuguesa (Sala Luís de Pina)
Até sexta, dia 23 — sessões diárias às 18h30

(Gérard Courant estará presente em todas as sessões)

quarta-feira, junho 21, 2017

Privado [citação]

>>> Daniel Day-Lewis vai deixar de trabalhar como actor. É enorme a sua gratidão a todos os seus colaboradores e espectadores ao longo de tantos anos. Esta é uma decisão privada e nem ele nem os seus representantes farão qualquer outro comentário sobre o assunto.

Leslee Dart
[porta-voz do actor]
in The New York Times, 20-06-2017

O apocalipse segundo Moby

Moby tem estado a oferecer o download do seu 14º álbum de estúdio, More Fast Songs about the Apocalypse, co-assinado com o colectivo The Void Pacific Choir. Agora, veio explicitar a temática — apocalíptica, bem entendido — das suas nove canções. Aí está o teledisco de In This Cold Place, realizado por Steve Cutts, representando um mundo em que personagens de desenhos animados e super-heróis vivem as agruras de um tempo dominado pelo poder do dinheiro. Uma crónica realista? Não exactamente... mas o certo é que Donald Trump é uma das personagens!

terça-feira, junho 20, 2017

Nicole Kidman, 50 anos

Grace de Mónaco (2014)
No filme Grace de Mónaco (2014), de Olivier Dahan, a memória de Grace Kelly é sujeita a uma evocação sóbria, mas convencional, das tensões entre o recato da intimidade e as obrigações da figura pública. Sendo tal abordagem em parte fundamentada num efeito de "duplicação" figurativa da própria personagem, por que é que, apesar de tudo, nos recordamos das singularidades do olhar e da pose, numa palavra, do trabalho de Nicole Kidman?
A resposta é simples: é isso que define uma actriz (ou um actor). A saber: a capacidade de aceitar as exigências, desde logo de natureza física, da personagem, sem alienar a irredutibilidade do seu labor de composição. Encontramos na sua carreira os mais variados testemunhos dessa dialéctica, por exemplo nos infinitos segredos de Retrato de uma Senhora (1996), de Jane Campion, na solidão primordial de Dogville (2003), de Lars von Trier, ou na pulsão trágica de O Outro Lado do Coração (2010) — no original Rabbit Hole, realização absolutamente extraordinária de John Cameron Mitchell, integra a lamentável lista dos grandes filmes nunca estreados nas salas portuguesas, embora tenha sido lançado em DVD com o título O Outro Lado do Coração [trailer].


Estamos a falar, afinal, da actriz que, em De Olhos Bem Fechados (1999), a obra-prima terminal de Stanley Kubrick, enfrentou o desafio supremo de se diluir nas dores de uma personagem capaz de conjugar o feminino num tempo sagrado em que transparência e negrume se confundem, contradizem e completam. E se é verdade que a sua trajectória envolve alguns percalços pouco motivadores — Horizonte Longínquo (1992), de Ron Howard... quem se lembra do embaraço da sua passagem em Cannes? —, não é menos verdade que ela persiste como imagem da própria ideia de cinema, radiosa e radical.
Nicole Kidman nasceu em Honolulu, Havaí, EUA, no dia 20 de Junho de 1967 — faz hoje 50 anos.
De Olhos Bem Fechados (1999)
>>> Site oficial de Nicole Kidman.

A IMAGEM: George Hurrell, 1932

GEORGE HURRELL
Joan Crawford
1932

"Girls Night" — comédia?...

Nada de novo na comédia americana... Girls Night esqueceu o património clássico — este texto foi publicado no Diário de Notícias (14 Junho), com o título 'Scarlett Johansson lidera comédia pouco inspirada'.

Há um curioso lugar-comum que insiste em proclamar que os críticos de cinema não gostam de comédias... Como se nunca ninguém tivesse dado atenção a Charlie Chaplin e Buster Keaton, Jerry Lewis, Jacques Tati ou Woody Allen. Em boa verdade, face a Girls Night [Rough Night], o problema é de outra natureza. A saber: como é que o filme aguenta a comparação com tais referências? Ou ainda: será que sabe, ou não, honrar a esplendorosa tradição de humor inscrita no património de Hollywood?
Na melhor das hipóteses, digamos que Girls Night se apresenta como uma tentativa de refazer, em tom feminino, o sucesso de The Hangover/A Ressaca (2009). É bem certo que este era um bom exemplo de uma certa recuperação nostálgica do burlesco clássico, mas foi rapidamente desbaratado nas suas “obrigatórias” sequelas. Girls Night sofre, afinal, do mesmo problema que tem assolado os “blockbusters” de super-heróis — produzem-se cópias atrás de cópias, obedecendo a uma lógica que já não envolve nenhum desejo de cinema, de tal modo está assombrada pelos valores de um marketing estranho a qualquer dimensão cinéfila.
Em A Ressaca, um grupo masculino viajava até Las Vegas para a festa de despedida de solteiro de um dos seus elementos. Agora, em Girls Night, encontramos quatro mulheres — Scarlett Johansson, Jillian Bell, Zoë Kravitz e Ilana Glazer — apostadas em desafiar todos os limites para, na noite de Miami, celebrar o casamento próximo de uma delas (Johansson). Cedo compreendemos que o ritmo da comédia, suas nuances e ambiguidades, é coisa pouco interessante para a realizadora estreante Lucia Aniello — confunde-se o humor com a acumulação de anedotas obscenas que, em última instância, apenas reflectem a degradação dos padrões, também eles clássicos, da “stand-up comedy”.
Digamos, então, que tudo corre mal... O grupo contrata um “stripper” para animar (?) a sua noite, mas na confusão que se gera ocorre um incidente trágico: o “stripper” morre numa queda, elas tentam esconder o corpo, o noivo intrigado com alguns telefonemas agitados decide rumar a Miami e aparecem dois homens armados com ar ameaçador...

Memórias de Blake Edwards

Semelhante sinopse pode suscitar uma pergunta pertinente: não deveria o crítico de cinema evitar resumir as peripécias que, afinal, ocupam quase dois terços do filme? Não tem o espectador direito a descobrir, por si próprio, tais peripécias? Sim, sem dúvida. Acontece que quem avança com tal resumo é o próprio trailer do filme, também neste caso confirmando um estilo de marketing que quase ninguém questiona: há filmes que deixaram de ser feitos para tentar surpreender o espectador — apenas se pede que, cumprindo uma missão de absoluta rotina, ele se desloque à sala escura para confirmar (?) as informações que já recebeu.
Podemos, talvez, especular um pouco sobre o que seria Girls Night se, de facto, o projecto fosse movido por um mínimo de empenho — e, sobretudo, de gosto — por essa arte de infinita complexidade que é a comédia. Podemos até evocar um certo modelo de comédia em que as referências sexuais, por vezes apenas através de calculadas sugestões, eram tratadas como subtil elemento de revelação das personagens — pensaremos, em particular, num cineasta como Blake Edwards (1922-2010) e em títulos como Uma Mulher de Sonho (1979) ou Victor/Victoria (1982). Na verdade, temos um vislumbre de tal possibilidade através da quinta mulher que se junta ao grupo. É ela a amiga da noiva que chega da Austrália — apesar da banalidade da realização de Aniello, a personagem permite à actriz Kate McKinnon, pelo menos, mostrar um pouco do seu enorme talento.
Curiosamente, McKinnon, tal como Aniello, tem o essencial da sua carreira ligado à televisão, em particular ao programa de comédia Saturday Night Live (NBC): as suas caricaturas de algumas figuras da cena política, incluindo Hillary Clinton a Kellyanne Conway, são pequenas obras-primas de humor. Para além da eficácia com que ela domina o sotaque australiano, há mesmo um momento delicioso — a canção que interpreta durante o genérico final — que fica como exemplo daquilo que Girls Night poderia ter sido. Entretanto, depois desse genérico, há ainda uma breve cena, com a personagem de Jilian Bell, que parece querer prever a hipótese de uma sequela... O marketing assim o impõe.